Mainatos - parte
II.
“O que não
referiste na tua publicação é que nós estávamos a assistir a um espectáculo. O
Manuel estava de cabeça grande, isto é com uma grande bebedeira.
Vocês saíram, mas logo a seguir voltaram e trocaram de
mainato”. José Neto.
Este
pormenor foi-me oferecido pelo meu camarada Neto, realmente fez luz na minha
cabeça. Com efeito, a operação em causa, tratava-se de uma missão de
patrulhamento, quatro dias e três noites, na zona do Congolo. Participaram na
mesma o 1º e 2º Pelotões da CCaç 3495. Foi comandada pelo Alferes Graduado
Pereira e no que concerne a Furriéis, era eu, 1º Pelotão e o Reis pelo 2º. Na
formatura de saída o estado de embriaguez do Manel era deveras notório, tinha
passado a noite na farra, muita cerveja baptizada com uísque (Sbell), foi um
fartar. Efectivamente nem deu para a curar. Todavia, segundo o comandante da
operação, a bebedeira não desculpava o furar da escala de serviço, se tocava ao
Manuel, era o Manuel que tinha marcar presença, não ia sobrecarregar um companheiro
de classe. Conquanto, uma coisa era certa, o Manuel também não se recusava a
sair, mesmo como um “cacho” era cumpridor, muito embora a “cabeça grande” e o
“chumbo nas pernas”, acompanhada de uma lengalenga cantada em língua macua, não
lhe davam discernimento e equilíbrio para cumprir as tarefas que lhe eram
atribuídas. Ainda assim, mesmo perante este panorama foi dada a ordem de arrancar.
Desde o portão sul de Omar, até ao quilómetro dois ou três da picada para o
trinta e quatro, neste tipo de surtidas militares, normalmente caminhávamos
pela picada, uma vez pelo centro outra vez por um dos sulcos impressos pelas
viaturas em viagens anteriores. A partir daqui é que nos embrenhávamos na mata.
Na realidade tudo dependia da avaliação do graduado que ia na frente. No caso
em apreço, ainda seguíamos na picada e o Manuel já tinha ido ao chão, três ou
quatro vezes, era um cabo dos trabalhos para se levantar. Ficava deitado no
solo a rir-se e não deixava de entoar a tal lengalenga. De facto, só com
ameaças de uma carga de porrada, é que a muito custo se colocava de pé e punha
o saco à cabeça. Porém, era sol de pouca dura, mais dois ou três e passos e lá
estava o Manuel no chão. Eu e o Pereira marchávamos no pelotão da retaguarda,
na última queda do assalariado, conversámos e chegamos à conclusão que era
impossível prosseguir a marcha com o Manuel naquelas condições. Contudo, foi a
muito custo que o Pereira, continuava renitente, acabou por aceitar a minha
sugestão, que visava devolver o mainato a Omar e substituí-lo por outro, depois
que lhe desse um punição, nem que fosse cinco ou seis saídas seguidas.
Nesta conformidade, eu acompanhado de
mais dois elementos invertemos a marcha e escoltamos o Manuel até ao
aquartelamento, se bem que esta viagem não foi fácil, o raio do homem,
continuava a cair e recusava-se a voltar para trás, pois segundo ele “estava
fino como um alho” e que era bem capaz de realizar as suas funções,
paralelamente tentava fazer os tradicionais quatro com as pernas, ao mesmo
tempo que dizia: “ Estous maning bem!”. Não obstante esta pouco clara
afirmação, pois mastigava as palavras e com um português carregado de macua,
catrapum, outra vez de cu no chão. Apenas com ameaças de violência física é que
se capacitou que tinha mesmo que regressar a Omar. Efectuamos a troca de
carregador e após lá seguimos e cumprimos a nossa missão.
No dia de regresso, quando chegamos ao
quartel, vislumbrei o Manuel junto do portão de entrada, lado sul. Como me
situava na frente, quarto ou quinto lugar da fila, o Manuel, bastante ansioso,
logo se me dirigiu pronunciando várias desculpas. Não prestei muita atenção somente
lhe disse para esperar e que fosse ter comigo no final da execução dos
procedimentos de segurança que era normal levar a efeito quando regressávamos
do mato.
Assim foi, banhado em lágrimas largou
várias desculpas, referindo que um dos colegas teria cumprido o aniversário e
por isso, a comemorar, é que abusaram da bebida, que tal situação não voltaria
a repetir-se. Por mim tudo bem, embora merecesses uns cachaços, foi a minha
resposta. No entanto, vais pedir desculpa ao Alferes Pereira, pois ele era quem
comandava a operação, acrescentei. Junto do Oficial em questão repetiu os
pedidos de desculpa, mas não se salvou de um grande raspanete e com um castigo
de sair três vezes seguidas para o mato.
O Manuel agradeceu com uma ronda de
salamaleques e os ditos de “gajo poreiro”.
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