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Madrinhas de Guerra, Guerra Colonial.



Madrinhas de Guerra
O termo Madrinha de Guerra refere-se a mulheres ou meninas que se correspondiam por correio com militares em campanha, de modo a apoiá-los moralmente, psicologicamente ou até mesmo emocionalmente. A madrinha de guerra escrevia cartas para o seu afilhado, todavia poderia também enviar pacotes com presentes, revistas, jornais e fotografias.
 Em Portugal a criação das madrinhas de guerra é da responsabilidade da associação "Assistência das Portuguesas às Vítimas de Guerra", fundada na sequência da proclamação do estado de guerra em Março de 1916. Esta associação era dirigida por Sophia de Carvalho Burnay de Mello Breyner e ligado aos meios mais conservadores da sociedade. Em Abril de 1917 surgiram as primeiras madrinhas de guerra.
Entre 1914 e 1918, as madrinhas de guerra foram muito importantes para o país, apoiando soldados na Flandres. Segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de 1936, muitas madrinhas de guerra tornaram-se noivas ou esposas dos afilhados.
Movimento Nacional Feminino (1961-1974) foi uma organização de suporte do Governo de então, criada por iniciativa de Cecília Supico Pinto e apoiada por Salazar, voltada para a organização das mulheres em torno do apoio à Guerra Ultramarina, em particular quando o conflito em Angola, Moçambique e Guiné se intensificou.
No decurso da Guerra nas possessões ultramarinas as madrinhas de guerra foram reativadas pelo MNF com a finalidade de proteger, de sobremaneira emocionalmente, os militares mobilizados no Ultramar. Estas correspondiam-se com os soldados, levantando-lhes a moral. De forma a sustentar este apoio foi criado o Serviço Nacional das Madrinhas, a iniciativa com maior adesão junto da população feminina. Os aerogramas trocados entre madrinhas e soldados tinham um custo mais reduzido, 20 Centavos para os civis ou eram gratuitos para os soldados, facilitando o contacto dos soldados com os familiares. Como na 1ª Guerra Mundial, muitas madrinhas de guerra namoraram e ou casaram com os afilhados.
Entre 1961 e 1974 o MNF editou mais de 300 milhões de aerogramas.
Os meios de contacto para convivência, usualmente, passavam em anúncios publicados em revistas, principalmente nas Revistas Plateia, Crónica Feminina, Notícia e Flama.
Obviamente que não fugi à regra, realmente mantive relações com várias madrinhas de guerra, quase uma dezena. Porém, o contacto com duas delas não digo que foi mais sério, ainda assim realista e ponderado. O diálogo, por carta, baseava-se na minha situação e no meu estado de espirito, não obstante a nenhuma delas ter mencionado a realidade nua e crua da situação que vivia, pelo menos em Omar. A Nicole, o nome e o endereço postal foram-me fornecidos pelo meu amigo de infância Ângelo Cunha, que na época também se encontrava em Moçambique, na zona do Niassa. Esta madrinha era de nacionalidade francesa, era natural ou pelo menos residia na cidade de Brest que se localiza no Noroeste de França. A par da troca de ideias, da permuta de fotos e de me ter enviado algumas lembranças; a meu pedido, solicitei que corrigisse o meu Francês. Efetivamente de bom grado acedeu à minha petição o que, na realidade, deu para melhorar o meu domínio sobre a língua gaulesa. Recordo que, na altura, ela ter dito que escrevia bastante bem e melhor que muitos franceses. Dizia ainda que o meu francês era muito arcaico, era literalmente prosaico, faltava-lhe termos usados na oralidade. Contudo, acho que isso se percebia bem o motivo dessa conjuntura, de facto, não falava francês todos os dias…
A outra madrinha era da zona de Lisboa, chamava-se Ana Rosa, a escrita sucedia normalmente, por vezes colocávamos temas em discussão e não obstante em algumas situações não termos chegado a acordo, houve sempre respeito mútuo. Desta madrinha, também recebi fotos, pequenas prendas, revistas e jornais que, como é óbvio me faziam muito jeito para matar o tempo e acompanhar de certa forma a atualidade do País.
No fim da Comissão de Serviço ainda coloquei a hipótese de as conhecer pessoalmente, a lisboeta não mostrou muito interesse, a outra não foi possível, na medida em que, na altura, a França era muito longínqua. Ainda tenho muito reconhecimento daquilo que fizeram por mim e o agradecimento será eterno. Só espero que ainda sejam vivas, que a vida lhes tenha corrido bem e que estejam ótimas.
As restantes eram para a ribaldeira, confabulava-se bastante, referíamos que aquilo quer éramos e não éramos. Na maior parte das ocasiões as cartas eram lidas na messe para agrado e gozo geral e inúmeras vezes também eram escritas coletivamente. Inclusivamente a uma delas enviei uma foto do meu camarada Paula, que media cerca de 1,90 m quando eu não ultrapassava o 1,70 m. Uma outra chegou a referir que eu redigia muito bem, logicamente que na resposta a esta missiva, retorqui que essa minha faceta era hereditária, pois era sobrinho neto do poeta Delfim Guimarães e alguns genes que recebi ao nascer deviam ser comuns. O poeta Delfim Guimarães, lá do paraíso e descendentes que, sem embargo passados estes anos todos, me desculpem o atrevimento. No entanto, esta minha madrinha, também não foi pobre na contra resposta, respondeu-me que também escrevia muito bem, dado que era descendente do grande escritor Júlio Diniz, toma e embrulha e envia para o SPM.
Em jeito de finalização quero deixar bem claro que estas madrinhas foram de uma utilidade magnânima para todos os soldados que combateram na guerra colonial. De certa forma foram um grande suporte moral e emocional para todo o pessoal. A todas o meu muito obrigado e creio que este agradecimento também advém da globalidade dos meus camaradas, agora veteranos de guerra. Bem hajam.

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