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Ares serranos.


Falar do Gerês e das suas gentes é fácil. Efectivamente, a natureza foi farta e generosa com aquela terra, a fauna e a flora da serra são deslumbrantes, quem, como eu já foi aos Carris, ao Pé de Cabril, a Cascata do Arado, quem já calcorreou inúmeros trilhos ou carreiros serranos, grava na memória representações pictóricas de lugares campestres tão magníficas que jamais passarão ao esquecimento. Esta paisagem é enriquecida pela população. Na verdade, é afável e simpática, realmente são de um trato fino e afectuoso. Contudo, são rectos e com um sentimento de honra muito elevados, senão vejamos a descrição efectuada no Século XVIII, constante no “Diccionario – Geografhico, Estatístico, Chorographico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico.” De Augusto Soares d´Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Passo a citar: “ A povoação das Caldas pertence á freguezia de Villar da Veiga, que tem (diz o autor, referindo-se ao anno de 1782) 148 homens e 175 mulheres, - total 323 habitantes, em 92 fogos, constituindo uma pequena republica, «similhante à de nossos pais, antes que conhecessem o jugo romano, gótico e arabigo».
O governo he democrático, e as diciozoens confiadas ao conselho e prudência dos ancioens, são sagradas…
Tem 7 tribunaes, e em cada hum prezide um velho, assistido 6 homens, a que chamão homens d´accordo. No regimento de tão pequeno estado se occupão 7 juizes  e 42 homens d´accordo.
Cada tribunal exerce differentes funcçoens…
O 1º he o do Juiz da Igreja se tratão negócios respectivos a Igreja.
O 2º he do Monteiro, em que se julga das montarias.
O 3º das Vaccas, que apena e despena os vaqueiros e se informa da sua contucta na guarda do gado.
O 4º e 5º das Cabras.
O 6º do Lagar do azeite, em que se dispõem da cultura e feitura do azeite.
O 7º he do Lugar, onde tratão negócios particulares, sobre obras, distribuição de terras para cultura, etc.
Vão aos chamados (dizem elles) e cada tribunal tem lugar próprio. Para o do Monteiro são convocados ao som da buzina; para os outros ao som de frautas diversas. A qualidade das penas são muitas vezes canadas de vinho.
São estes povos muito zelosos de suas mulheres e filhas. Olhar para elas hum estranho é offendel-os, pelo que há poucos annos (refere-se a 1782) passando qualquer pessoa a elles desconhecida, como o objecto zelado chegasse a ser visto pelo tranzeunte, convocava-se o povo de repente, hum e outro sexo se armava com armas de fogo, paus e pedras, e expelião o pobre estrangeiro. António Soromenho d`Olivaes, abalizado sacerdote, sendo seu vigário, os dissuadiu d`esta temeridade, e em assembleia pactuarão que d`ahi em diante fielmente cumprirão, porque as suas promessas são invioláveis!” fim de citação. Organizados, zelosos do que era seu, duros e disciplinados. Porém, cumpridores da sua palavra. Digo eu.
                                                                   A minha ligação a esta terra e a esta gente estabeleceu-se na minha nascença. Não obstante ser flaviense de nascimento e bracarense de coração, as minhas raízes encontram-se, por via paterna no Gerês e por via materna no Vilar da Veiga, sou neto do Zé Guimarães (alfaiate) que foi figura, não direi típica mas bastante popular no Gerês, por outro lado, também sou neto do Mestre Zé Gonçalves, que nos anos trinta e quarenta foi o responsável pela Banda Musical do Vilar da Veiga. Após o falecimento do meu avô o meu tio Domingos ainda tentou dar seguimento à Banda. Todavia, não obstante ser um músico de excepção, não tinha autoridade e a disciplina do pai, razão pela qual, tal Banda se extinguiu. Desde a infância algumas férias de Verão foram passadas no Vilar da Veiga, nas casas das minhas tias Gracinda e Angelina ou dos meus tios Manuel da Assureira ou Manuel Guimarães (Gerês). As idas para a serra acompanhando o rebanho de cabras e ovelhas das minhas tias que era pastoreado pelo meu primo Zé Augusto, eram tão enlevantes que as horas se passavam sem dar por isso. Os banhos dados na albufeira (na poça do eido) eram tão refrescantes que só eram interrompidos quando as tias chamavam ou quando improvisávamos canas de pesca, com canas de foguete, linhas de coser, cortiça de rolha para a bóia, uma cabeça de prego para o peso e um arame fino para manufacturar um anzol, sendo certo que para o isco tínhamos três opções, a saber: minhoca, mosca ou pequenas bolinhas de pão, mesmo com este material arcaico, por vezes, lá se sacava uma pequena boga que, obviamente, devia andar muito distraída. As idas à “quinta do padre” com o meu tio e padrinho Mota eram autênticas aulas sobre a natureza. A vasta sabedoria que possuía transmitia-a de uma forma natural, recordo-me que foi com ele que pela primeira vez na minha vida comi cogumelos “xoteiros”. De facto, foram apanhados na hora, lavados e assados na brasa. Na hora da apanha foi-me explicado e comparados com outras espécies, a razão porque estes eram comestíveis. Na realidade era tudo tão natural, o pão era cozido em casa, o porco, que dava carne para todo o ano era criado domesticamente, a matança do animal era um festa, disputava com o meu irmão e com os meus primos a bexiga do desgraçado para fazer um balão, o leite era das cabras, as hortaliças do quintal ou da quinta, efectivamente e não obstante (no Vilar da Veiga) não haver, até meados dos anos 70, electricidade, afirmo com muita convicção que éramos uns privilegiados.
Desde sempre teve apego ao Vilar da Veiga e ao Gerês. Aliás, ainda hoje as minhas filhas me dizem que quando na sua infância saíamos num qualquer passeio domingueiro, sem alvitrar o destino, elas de imediato diziam “ lá vamos para o Gerês “. Era inconsciente era como o grito da sereia dirigido ao pobre marinheiro. Aquela terra tem algo de especial.
                                                                 

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