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Ares Serranos, Parte 2


No último texto, Ares Serranos, já me referi sobre a afabilidade e simpatia da gente serrana. A par de serem rectos e com um sentimento de honra muito elevado, também possuem um sentido muito grande de disciplina e solidariedade.
                                                                  Não para confirmar mas sim para reforçar esta ideia, veja-se a famosa história do famigerado “Rei Preto”, indivíduo que se tornou famoso no Vilar da Veiga e freguesias limítrofes, por ser um ousado salteador e ladrão assassino. Efectivamente, espalhou o terror por toda a região serrana, as suas saídas eram quase sempre cobertas com o sangue das suas vítimas indefesas. Tanto assaltava quintas, residências ou muito simplesmente viajantes, querem estes fossem meros peregrinos ou vulgares mercadores. As pessoas não se aventuravam a viajar de noite e quando o faziam, armavam-se fortemente e aliavam-se em grandes grupos. O Rei Preto era um produto da guerra civil que grassou em Portugal, entre 1828 e 1834, como é sabido em tal guerra confrontaram-se os “Absolutistas” corrente afecta a Dom Miguel e os “Liberais”, ligados a Dom Pedro, também como é certo, saiu a ganhar a corrente liberal. Naquela altura não havia muita piedade pelos vencidos, pelo que muitos Miguelistas passaram-se para Espanha, onde ajudaram numa luta espanhola os Carlistas, outros passaram à clandestinidade em Portugal, dedicando-se à guerrilha. Exemplo o “Remexido” na zona serrana do Algarve. Todavia, outros, tal qual o Rei Preto, efectuaram a guerrilha por conta própria, chamando para si todos os proveitos da sua acção delituosa e espalhando o ódio e o terror sem qualquer tipo de limitações.
                                                                  A Guarda e o Exercito eram chamados desde Braga, para prender este grande facínora. Porém, como a preparação e a viagem se passava com bastante alarido e enorme lentidão, o Rei Preto sabia de antemão quando as forças saíam de Braga ou do Porto para o procurar, pelo que com facilidade se internava e obviamente se dissimulava na Serra do Gerês ou na Sierra do Xurês na Galiza. Aliás, este com o passar do tempo estabeleceu residência num tugúrio serrano que se situava nos subúrbios de Lobios, onde as autoridades galegas o deixavam mais ou menos à vontade, na medida em que ele, por aquelas bandas tinha uma vida muito recatada e sem infringir qualquer lei penal ou social local. Contudo, o que ele não contava era com a raça e o querer das gentes geresianas. Realmente, após várias queixas, o Regedor do Vilar da Veiga, reuniu como os Cabos de Polícia do Vilar, do Gerês e da Ermida, bem como algumas figuras proeminentes, em termos sociais, da terra e resolveram, por conta própria, dar caça ao vilão. Consequentemente, após ter sido reunida alguma informação sobre o paradeiro do foragido, numa noite iluminada de Agosto, saiu do Vilar um grupo fortemente armado com armas de fogo, sacholas e varapaus, capitaneado pelo Regedor, dirigindo-se para terras Galegas. De facto, ao romper da aurora a casa, ou melhor o buraco, onde o Rei Preto se acolhia foi localizado e logo que o sol raiou, o assalto efectuou-se. Pode-se dizer que foi apanhado com as calças na mão. A mulher que o acompanhava foi deixada em paz, mas o detido de imediato foi conduzido para Portugal. Logo que o grupo chegou à Portela do Homem, alegando razões de segurança, o Regedor improvisou um Tribunal popular para julgar o malfeitor. Na realidade, auto-denominou-se Juiz, tendo por sua vez designado em Júri de seis pessoas, bem como nomeou um acusador e um defensor para o réu. Foi lida com bastante celeridade a acusação, o defensor apenas pediu para o réu justiça. À pergunta sobre a sua culpabilidade ou inocência, o Rei Preto apenas rosnou um som indecifrável. Nesta conformidade, o Júri que nem precisou de reunir, por unanimidade ditou a culpa do julgado. Após breve silêncio o Juiz sentenciou o Rei Preto à pena capital, acrescentando que tal pena era para cumprir de imediato. Nestes termos, imediatamente se formou um Pelotão de sete homens, o condenado de mãos atadas e de olhos vendados foi encostado a um barranco, e antes de ser cumprida a sentença o Regedor perguntou-lhe se queria dizer alguma coisa. O Rei Preto, com um esgar de ódio apenas disse: O cão muitas vezes vai ao galinheiro, mas quem arca com as culpas é a raposa. Tal dito não obstou a que o Chefe do Pelotão desse a ordem de fogo. Ouviu-se um enorme estrondo e o Rei Preto caiu para sempre.
Moral da história: Se não fosse a solidariedade, a união e o sentido de justiça da gente serrana, a praga não tinha desaparecido tão cedo.
Bibliografia: -“Diccionario – Geografhico, Estatístico, Chorographico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico.” De Augusto Soares d´Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, Largo do Camões, 5 e 6, Lisboa.

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