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Mensagens

Porto Amélia ou Pemba.

Porto Amélia ou Pemba. Repartia o aposento, na Messe de Sargentos, com o Rolando Fonte, quando cheguei já este dormia profundamente. A janela do quarto estava aberta, pois o calor era bastante. Despi-me às escuras para não o perturbar, nem para atrair a mosquitada que por ali rondava, ávidos para sugarem o sangue fresquinho da “checalhada”, recentemente chegada a Moçambique. Acendi um cigarro, um LM que parecia palha em comparação com o Porto, que utilizava na Metrópole.          Encontrava-me em meditação profunda, pensando no futuro sombrio que se aproximava a passos largos, quando o Rolando Fonte, acordou e ainda estremunhado, disse: -          A fumar no quarto. Sabes que o fumo me incomoda bastante. Apaga essa merda e vai dormir que o dia não tarda. O Rolando era um desportista nato, logo anti-tabagista. Pedi-lhe desculpa e aceitei o alvitre. Apaguei o cigarro, despi-me e deitei-me em cima dos lençóis. T...

Entre a Beira e Porto Amélia.

Na primeira noite africana, foi difícil dormir. O calor, as melgas e os mosquitos. A comida e as bebidas ingeridas em excesso. O sexo. A mudança de clima, tudo aconteceu muito depressa. Recordei-me da ex-namorada. Embora a noite fosse curta, nunca mais acabava. Como tinha que me apresentar no Batalhão às 08,00 horas. Mas o corpo dorido, a boca a saber a papel de música, olheiras profundas, é certo que essa situação estava a dificultar o acto. Porém, por volta das sete horas lá me levantei. Após um duche frio e rápido, fardei-me. Tomei o pequeno almoço com os colegas que já se encontravam na sala de refeições. Depois de vários comentários á noite anterior todos nos dirigimos para o quartel. Na formatura da manhã, contou-se o pessoal e na, verdade, não faltava ninguém. Quer dizer que ninguém se perdeu na noite anterior, nomeadamente, aqueles que foram até Metacolia ou aqueles que foram até ao Mira Mortos. Este era o nome que se dava a um prédio que se situava junto ao Cemitério da Bei...

O meu primeiro dia em África

Na Beira, foi recebida a notícia da primeira baixa – morte – de um elemento pertencente ao Batalhão. Há cerca de oito dias tinha arribado àquela cidade a CCS. Com efeito, num fim do dia da chegada, o pessoal teve permissão de sair até á meia noite, pelo que a maioria, em grupos, aproveitou esse facto e veio descontrair até á cidade. Um desses grupos, composto por cinco elementos, na marginal, preparava-se para atravessar a mesma. O Figueiredo, o primeiro do mesmo, antes de colocar o pé no asfalto, olhou para esquerda, e como não vislumbrou nenhuma viatura colocou o pé na estrada para olhar á direita. Mas, quando o fez, de imediato foi colhido com violência por uma viatura que rodava da sua direita para esquerda. Teve morte imediata. O seu corpo foi projectado a cerca de 30 Metros. Segundo os colegas de grupo, nem gemeu. O cadáver foi transportado para a morgue do hospital civil e aí entregue ás autoridades militares. A família, residente numa aldeia recôndita de Trás-os-Montes, no C...

África minha!

Chegada a Moçambique Dedico este diário, ficcionado, aos meus camaradas da CCaç 3495, em especial a Manuel Gaspar, Barros Reis, Vítor Nunes, Rondinho Uaera e Tomás Tembe. Seriam cerca das 17,00 horas, do dia 23 de Fevereiro de 1972, quando o avião, Boeing 707 da FAP, deixou Lisboa, o casario da cidade começou a ficar minúsculo. O Tejo começou a parecer um pequeno riacho. Pouco tempo depois deixamos de vislumbrar terra. Nesta viagem fomos acompanhados pelo movimento aparente do sol, razão pela qual só anoiteceu cerca das 21,00 horas. Ainda chegamos a ver as Ilhas Canárias. Daí para frente apenas escuridão, todavia, de longe a longe lá aparecia uma pequena luz que seria de algum barco que, solitariamente, navegava pelas águas escuras do Oceano Atlântico. Cerca das 22,00 horas foi servido o jantar. Carne guisada com ervilhas, salada de legumes, recipientes com compota de fruta, iogurte, pão e bebida e, finalmente, café. Mal o pessoal de cabina do avião terminou a recolha dos apetrec...