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Eu e o meu gato.

Eu e o meu gato.

 

A relação entre o ser humano e o gato doméstico é, mais ou menos, pacífica. Nessa perspectiva a minha relação com o Cocas, o gato que viveu cá em casa cerca de vinte anos, correu normalmente e dentro desse paradigma.

Foi recolhido em Novembro de 1997, já com cerca de três meses de vida. Era um dia frio, encontrava-se no motor de uma viatura automóvel, onde se refugiou para se resguardar das fortes geadas desse mês invernoso. Apenas quando o condutor a imobilizou se ouviram uns ténues miados oriundos daquele sector do automóvel. Uma alma caridosa, neste caso a minha mulher, de imediato, mas muito receosa, foi verificar a origem do som. Lá estava ele, com os olhos muito arregalados, muito assustado, parecendo dizer:- Já estou aqui há muito tempo! Tirem-me daqui.

Foi retirado sem que tivesse reagido negativamente, vislumbrando-se que tinha as quatro pequenas patas queimadas. Nesse mesmo dia foi levado ao veterinário que o examinou, constatando que o bicho se encontrava de boa saúde, exceptuando como é óbvio, as pequenas queimaduras. Era tigrado europeu. Teria cerca de três meses de vida.

As minhas filhas para que o aceitasse colocaram-lhe ao pescoço, uma etiqueta que dizia, mais ou menos:- Estou perdido, acolhe-me, snif… snif … snif. Perante este singelo e submisso pedido de auxílio, o gato foi acolhido e nomeado, seria Cocas, em homenagem ao sapo dos Marretas.

Realmente era um animal fora de comum, era um exímio caçador e solidário, não se importava de partilhar a caça, consequentemente trazia para casa, para dividir com os donos, pássaros, ratos e pequenos répteis. Alguns deles ainda vivos. Também ia beber água ao aquário, onde vivia um pequeno peixe vermelho, por vezes introduzia a pata e conseguia sacar de lá o peixe. Todavia, numa certa altura numa outra aventura ia-lhe saindo cara a ousadia. Na realidade no tecto, da marquise existia pendurada uma gaiola, onde habitava um casal de periquitos. Conseguiu formar um salto desde um móvel que distava da base da gaiola cerca de 1,50 metros. Porém, os cálculos do pulo saíram-lhe furados, de facto voou mas apenas conseguiu ficar preso pela goleira num dos ganchos da base da residência aramada das aves, ficando pendurado, a jeit

Eu e o meu gato.

 

A relação entre o ser humano e o gato doméstico é, mais ou menos, pacífica. Nessa perspectiva a minha relação com o Cocas, o gato que viveu cá em casa cerca de vinte anos, correu normalmente e dentro desse paradigma.

Foi recolhido em Novembro de 1997, já com cerca de três meses de vida. Era um dia frio, encontrava-se no motor de uma viatura automóvel, onde se refugiou para se resguardar das fortes geadas desse mês invernoso. Apenas quando o condutor a imobilizou se ouviram uns ténues miados oriundos daquele sector do automóvel. Uma alma caridosa, neste caso a minha mulher, de imediato, mas muito receosa, foi verificar a origem do som. Lá estava ele, com os olhos muito arregalados, muito assustado, parecendo dizer:- Já estou aqui há muito tempo! Tirem-me daqui.

Foi retirado sem que tivesse reagido negativamente, vislumbrando-se que tinha as quatro pequenas patas queimadas. Nesse mesmo dia foi levado ao veterinário que o examinou, constatando que o bicho se encontrava de boa saúde, excetuando como é óbvio, as pequenas queimaduras. Era tigrado europeu. Teria cerca de três meses de vida.

As minhas filhas para que o aceitasse colocaram-lhe ao pescoço, uma etiqueta que dizia, mais ou menos:- Estou perdido, acolhe-me, snif… snif … snif. Perante este singelo e submisso pedido de auxílio, o gato foi acolhido e nomeado, seria Cocas, em homenagem ao sapo dos Marretas.

Realmente era um animal fora de comum, era um exímio caçador e solidário, não se importava de partilhar a caça, consequentemente trazia para casa, para dividir com os donos, pássaros, ratos e pequenos répteis. Alguns deles ainda vivos. Também ia beber água ao aquário, onde vivia um pequeno peixe vermelho, por vezes introduzia a pata e conseguia sacar de lá o peixe. Todavia, numa certa altura numa outra aventura ia-lhe saindo cara a ousadia. Na realidade no tecto, da marquise existia pendurada uma gaiola, onde habitava um casal de periquitos. Conseguiu formar um salto desde um móvel que distava da base da gaiola cerca de 1,50 metros. Porém, os cálculos do pulo saíram-lhe furados, de facto voou mas apenas conseguiu ficar preso pela goleira num dos ganchos da base da residência aramada das aves, ficando pendurado, a jeitos de um enforcamento. De facto o que lhe valeu foi estar alguém que estava perto e o livrou da situação incómoda e perigosa que lhe provocaria certamente uma morte certa. Contudo esse episódio não obstou a que ainda lançasse uns esgares de mafioso para o casal de pássaros.

Também tinha o vício de me acordar de forma estranha e um pouco violenta. Principalmente de madrugada quando queria ir vadiar. Com efeito subia para a cabeceira da cama e daí formava um salto sobre a minha pessoa. A minha esposa também lá estava, mas o danado escolhia-me sempre a mim. Já estão a ver os chorrilhos de palavrões e insultos que eu lançava sobre ele. Quando me sentia fora da cama fugia á minha frente e dirigia-se sempre para a porta de saída da casa, aí parava, olhava para mim com uma desfaçatez que só visto, como querendo dizer:- Estás à espera de quê? Abre á porta que eu quero ir às gatas! … E pronto. Eu fazia-lhe a vontade, desarmava-me sempre e facultava-lhe a saída, lá passava a vontade de lhe dar uma tareia…

Quando havia roupa a secar no arame exterior (1º andar) e quando essa roupa era longa, tipo lençóis ou passadeiras, ele para entrar na residência, não chateava ninguém, escalava esse tecido e com o maior à vontade fazia daquilo uma autoestrada. Numa outra ocasião, seriam cerca das 4,00 horas da madrugada, o meu telemóvel toca e reparo que era o meu Chefe a contactar-me. Obviamente que o atendi e perguntei o que se passava. Respondeu-me que eu devia saber o que se estava a passar pois tinha sido eu quem lhe tinha ligado. Estremunhado respondi que não tinha ligado, ainda assim ia ver o que se tinha passado. Não obstante o aparelho estar em cima do guarda-fatos, por causa do Cocas, constatei que aquele não se inibiu de ir lá e carregar na tecla rápida de ligação, escolhendo o meu Chefe, apesar terem sido programadas no aparelho mais três teclas com essa função.

Apesar de traquina, caçador, mafioso era também meigo e doce. Na verdade, quase todas as noites principalmente nas noites mais frias, durante os serões, subia para junto de mim e aninhava-se no meu colo procurando o melhor jeito para adormecer e ficava deveras chateado quando eu não permitia essa situação ou quando tinha que ser mesmo, pois ia recolher à cama. Fazia um pequeno miar de protesto, querendo dizer:- Vai, vai que já te apanho! … Depois queixa-te dos tais saltos da cabeceira.

O Cocas partiu para o céu dos gatos com a provecta idade de 20 anos, foi em Agosto de 2017, cumprem-se hoje três anos. Até nessa hora demonstrou o carinho que tinha pela minha pessoa. Estava no quintal, sentado numa cadeira a ler o jornal, ouvi um miar esquisito e reparei que cambaleando o gato dirigia-se para mim. Chamei-o, na medida em que ele já estava quase cego, perseguiu a voz, deitou-se sobre os meus pés e aí desfaleceu para sempre. Não chorei, mas senti um aperto no coração, aquela partida, embora esperada mexeu comigo. No entanto, sem qualquer tipo de embargo posso afirmar que foram vinte anos e durante esse lapso de tempo gostei imenso da agradável companhia do Cocas.

 

 

os de um enforcamento. De facto o que lhe valeu foi estar alguém que estava perto e o livrou da situação incómoda e perigosa que lhe provocaria certamente uma morte certa. Contudo esse episódio não obstou a que ainda lançasse uns esgares de mafioso para o casal de pássaros.

Também tinha o vício de me acordar de forma estranha e um pouco violenta. Principalmente de madrugada quando queria ir vadiar. Com efeito subia para a cabeceira da cama e daí formava um salto sobre a minha pessoa. A minha esposa também lá estava, mas o danado escolhia-me sempre a mim. Já estão a ver os chorrilhos de palavrões e insultos que eu lançava sobre ele. Quando me sentia fora da cama fugia á minha frente e dirigia-se sempre para a porta de saída da casa, aí parava, olhava para mim com uma desfaçatez que só visto, como querendo dizer:- Estás à espera de quê? Abre á porta que eu quero ir às gatas! … E pronto. Eu fazia-lhe a vontade, desarmava-me sempre e facultava-lhe a saída, lá passava a vontade de lhe dar uma tareia…

Quando havia roupa a secar no arame exterior (1º andar) e quando essa roupa era longa, tipo lençóis ou passadeiras, ele para entrar na residência, não chateava ninguém, escalava esse tecido e com o maior à vontade fazia daquilo uma autoestrada. Numa outra ocasião, seriam cerca das 4,00 horas da madrugada, o meu telemóvel toca e reparo que era o meu Chefe a contactar-me. Obviamente que o atendi e perguntei o que se passava. Respondeu-me que eu devia saber o que se estava a passar pois tinha sido eu quem lhe tinha ligado. Estremunhado respondi que não tinha ligado, ainda assim ia ver o que se tinha passado. Não obstante o aparelho estar em cima do guarda-fatos, por causa do Cocas, constatei que aquele não se inibiu de ir lá e carregar na tecla rápida de ligação, escolhendo o meu Chefe, apesar terem sido programadas no aparelho mais três teclas com essa função.

Apesar de traquina, caçador, mafioso era também meigo e doce. Na verdade, quase todas as noites principalmente nas noites mais frias, durante os serões, subia para junto de mim e aninhava-se no meu colo procurando o melhor jeito para adormecer e ficava deveras chateado quando eu não permitia essa situação ou quando tinha que ser mesmo, pois ia recolher à cama. Fazia um pequeno miar de protesto, querendo dizer:- Vai, vai que já te apanho! … Depois queixa-te dos tais saltos da cabeceira.

O Cocas partiu para o céu dos gatos com a proveta idade de 20 anos, foi em Agosto de 2017, cumprem-se hoje três anos. Até nessa hora demonstrou o carinho que tinha pela minha pessoa. Estava no quintal, sentado numa cadeira a ler o jornal, ouvi um miar esquisito e reparei que cambaleando o gato dirigia-se para mim. Chamei-o, na medida em que ele já estava quase cego, perseguiu a voz, deitou-se sobre os meus pés e aí desfaleceu para sempre. Não chorei, mas senti um aperto no coração, aquela partida, embora esperada mexeu comigo. No entanto, sem qualquer tipo de embargo posso afirmar que foram vinte anos e durante esse lapso de tempo gostei imenso da agradável companhia do Cocas.

 

 

 

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