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Estórias


                                                                 
Na minha infância e na minha adolescência viver no Bairro da Misericórdia, era como viver numa localidade situada nos subúrbios de Braga, efectivamente a Rua Abade da Loureira por um lado e as Palhotas pelo outro eram autênticas fronteiras e só eram transpostas, sobretudo na infância, com a autorização paterna. Consequentemente, o nosso mundo era ali, tudo se passava naquele espaço, bem como nos espaços adjacentes, todavia, apenas para os lados que não davam à cidade, Senhora do Monte, Monte Castro, Mata dos Padres e raramente no Campo de Aviação. A brincadeira era passada na rua, jogando futebol ou hóquei em campo, os sticks eram feito com os troços das couves e as bolas eram daquelas utilizadas nos jogos de matraquilhos. Também faziam parte dos passatempos o jogo do botão, do pião, cartas, meta, uma espécie de soccer table sendo certo que o campo era desenhado no solo, a bola era um bugalho pequeno, as balizas eram latas de sardinha e os jogadores eram as cápsulas das cervejas ou laranjadas. Cada jogador compunha a sua equipa com cápsulas da mesma marca, isto é se a minha fosse da laranjada Bom Jesus, já nenhum outro competidor podia ter uma equipa formada com caricas daquela marca. Por fim também, existiam aqueles jogos mais clássicos como por exemplo o esconde, a passa, o “pai velho”, a mosca, mosquito e moscardo e aquele que denominávamos por “caga e meija”. As corridas também faziam parte do entretimento, sendo certo que podiam ser simples e outras conduzindo uma roda com um gancha (arco). Eram horas intensas de brincadeira que somente eram interrompidas pelo chamar das mães, naquele tempo, quase todas elas eram donas de casa, ou então pelo cair da noite.
Neste contexto, existiram várias figuras, que por um motivo ou outro, se realçaram nessa vivência. Nesta conformidade, hoje, quero destacar o Manel. Era da geração anterior à minha. Destacou-se principalmente pelo seu ar alegre e jovial e às vezes leviano, isto é, sem reflectir muito nas consequências dos seus actos, mas agia sempre sem maldade e por vezes usava de uma ironia super refinada. Quando teria catorze ou quinze anos o Manel desapareceu. Toda a gente do bairro o procurava, foi uma aflição. Ao cabo de uma semana e depois de muita angústia, chega uma carta de Lisboa, dirigida ao pai do desaparecido, remetida por um irmão que residia na capital. Dava conta que o rapaz tinha chegado bem e estava a encetar diligências com o intuito de lhe arranjar emprego. Porém, não acreditando muito na versão do sobrinho questionou o irmão no sentido se tinha autorizado a sua ida para Lisboa, pois estranhou o facto de ele lhe aparecer sem qualquer aviso prévio. O Sr. Carlos, pai do Manel, de imediato respondeu ao irmão que o rapaz se tinha ausentado de casa sem sua autorização, pelo que lhe solicitou o recâmbio o mais rapidamente possível. Consequentemente, no fim de mais uma semana já o fujão estava no Bairro, contando a sua epopeia vivida entre Braga e Lisboa, bem como referindo pormenores da sua estadia de quinze dias no sul. Acontece que o “herói” efectuava as suas narrativas já com um sotaque supostamente lisboeta, levando o Lino Veloso ao seguinte comentário: Este gajo está quinze dias em Lisboa e já vem a falar como lisboeta, vai pró c. não inventes. Resposta do visado, fazendo-o de forma séria e bastante compenetrado: Que é que queres pá, foi das “quemidas e das vevidas”. Resultado, gargalhada geral.
O nosso homem também foi o primeiro “aparaquedista” do Bairro. Efectivamente, no monte da escola, já desaparecido, mesmo no cimo havia um grande carvalho, rodeado de denso e alto matagal. Certo dia, o Manel e os seus seguidores, o Bé e o João, deu-lhes para subir para o galho mais alto da árvore e dali, embrulhados num velho sobretudo do pai de algum deles, após a voz de comando do “chefe”, atiravam-se para o meio do mato que amortecia a queda. Segundo o comandante Manel era treino para ingressar nos “aparaquedistas”. Aliás, no momento do salto era proferido um grito de guerra, era mesmo esse “ aparaqued….is…ta” e zás. Esta aventura repetiu-se várias vezes sem graves sequelas para qualquer deles. Na maior parte das vezes o sarilho era sair incólume do meio da mata após a queda, sobravam sempre umas escoriações. Mas essas esfoladelas eram os vestígios da coragem dos bravos “soldados do ar”. Por consequência ou não, o João, mais tarde, ingressou mesmo no Corpo de Pára-quedistas.
Originário de família humilde mas trabalhadora o Manel, logo após ter concluído a primária foi trabalhar para as pedreiras do Monte Castro. Conseguiu o lugar de ajudante de camionista, primeiro na pedreira do Teixeira e mais tarde na pedreira do Silva. Nesta última pedreira quem conduzia o camião era o próprio patrão. Efectuei muitas viagens com eles, principalmente ao Porto do Leixões, de onde era exportado para vários países o granito já transformado em paralelepípedo, rachão ou em pilares. Realmente, o Sr. Silva também residia no Bairro, numa das casas que ladeiam a Avenida da cadeia, sendo certo que entre esta via e as casas do bairro existia e existe um pequeno muro, com cerca de metro e meio de altura a separá-las. Certo dia o Sr. Silva procedia a uma manobra de inversão de marcha na rua da cadeia, mesmo em frente à sua residência, sendo orientado pelo seu ajudante, quando circulava de marcha atrás, com a traseira do camião em direcção ao muro, o Manel ia dizendo: Venha, venha … venha. Alguma coisa o distraiu e quando deu por ela, já o camião embatia no muro derrubando algumas pedras. Contudo, sem perder a calma e a compostura disse-lhe: Venha, venha, venha ver a merda que fez.
Ainda relacionado com o empregador do nosso herói, adianta-se que o mesmo era proprietário de um automóvel antigo, mesmo naquela época, da marca Studebaker. Sobretudo ao Sábado, pela calada da noite, o Manuel dirigia-se à residência do Sr. Silva, onde este, em frente à mesma, estacionava essa viatura. Era fácil de colocar em funcionamento, mas desde o local de estacionamento até o colocar na Rua D. Francisco de Noronha, no sentido descendente era empurrado com vista a não acordar ninguém com o seu roncar característico. Posto a funcionar o pessoal encafuava-se no interior, às vezes eram mais de uma dúzia de passageiros e lá se ía dar uma volta. Normalmente o percurso era descer os bairros da Senhora do Monte e São Martinho, ir até Dume, passar em Real efectuar a inversão de marcha no Feital e daí efectuar o percurso inverso. Efectivamente, davam-se as voltas que eram possível efectuar. Acontece que numa noite de inverno, num desses périplos, a meio do “estirão” a longa recta que ligava Dume a Real o carro parou na medida em que o motor deixou de funcionar. Obviamente que toda a gente abandonou o mesmo e abriu-se o “capot” para verificar o motivo da avaria. Quando todo pessoal estava entretido alguém vislumbrou que no princípio da recta, do lado de Real, vinha no nosso sentido uma viatura com um pirilampo a assinalar a marcha, pensamento unânime, é a Polícia. Apressadamente e de forma atabalhoada quase todos iniciamos uma fuga para os campos de cultura que ladeavam a estrada. Realmente o que não era esperado era o estado deles, de facto encontravam-se completamente alagados pelo que com a correria desenfreada e alguns tombos, motivou a que todos os fugitivos ficassem cobertos de lama desde os pés à cabeça. Acontece que a viatura em causa quando passou no local a toda a brida, constatamos que a dita era uma ambulância e não nenhum carro patrulha da “bòfia”. Repararam que eu referi quase todos nós fugimos, pois é, houve uma excepção, o Manel, já que este embrulhado sob o “capot” a ver se resolvia a problema do nosso transporte nem deu por nada. Na realidade, quando chegamos junto dele, muito admirado pelo nosso estado, perguntou e advertiu: Um gajo aqui preocupado em arranjar esta merda e vocês vão brincar para o campo. Nós não sabíamos de rir ou chorar. Final da história o motivo da avaria era falta de gasolina, lá juntamos os tostões que cada um tinha e lá veio o Manel, era o que se encontrava mais apresentável, ao Campo da Vinha a penates, à bomba de gasolina que ali existiu em busca de combustível para recolocar o Studebaker no seu sítio.
O nosso homem vivia perto da escola. Acontece que na “Rua do Meio” vivia uma velha senhora, numa daquelas casas térreas que não tinham acesso ao quintal pelo exterior. No entanto, da rua era visível no já citado quintal um frondoso pessegueiro que naquele ano havia carregado abundantemente. O Manel passava e via os pêssegos já vermelhos e pedia educadamente: “Sôra Agustinha” dê-me um pêssego que eu tenho fome. Respondia a senhora: Não dou nada, come mas é “caurdo” seu “gueloso”. Efectivamente, foram efectuados vários pedidos, porém as respostas da proprietária do pessegueiro sempre foram as mesmas. Mandava-o sempre comer “caurdo” e ao mesmo tempo apelidava-o de “gueloso”. Numa noite, o Manel munido de uma saca escalou ao telhado utilizando o poste da luz dirigindo-se à árvore de fruto em causa de onde retirou quase a totalidade dos pêssegos. Apareceu na Escola reuniu os amigos e foi comer fruta apetitosa até fartar. Na verdade, ninguém perguntou a origem da mesma, na medida em que todos presumiram que tivesse vindo da quinta do rascão, dado que era ali que o pessoal se fornecia de fruta sem falar com o dono. Contudo, estranharam o facto de o distribuidor guardar cerca de uma dúzia de peças, as mais bonitas e ia avisando: Nestes ninguém toca. No dia seguinte, logo pela manhã, colocou a tal dúzia de pêssegos num açafate que arranjou em casa, cobriu-os com o pano branco e dirigiu-se à casa da Senhora Agostinha. Quando esta lhe abriu a porta o Manel polidamente entrega-lhe o açafate com a fruta e disse-lhe: Tá ver, a “sôra Agustinha” não me deu pêssegos, mas a minha mãe manda-lhe estes do nosso quintal. A velha senhora agradeceu a amabilidade e pretendeu dar-lhe uma peça de fruta pelo trabalho. Mas o Manel recusou dizendo: Não quero, muito obrigado. Ontem à noite apanhei um fartote de pêssegos que ainda estou enjoado. Mas o bom e o bonito foi quando a Senhora Agostinha verificou que o seu pessegueiro já não exibia quase nenhum fruto. Imediatamente lhe veio à ideia a oferta do rapaz. Mais tarde quando o viu ainda o ameaçou: Anda meu “meurrinho” quando te apanhar vais levar umas vassouradas. A ameaça apenas fez soltar ao Manel uma longa e despreocupada gargalhada, ao mesmo tempo que dizia perguntando: Ai queria pêssegos do meu quintal?
Vou finalizar com a história do “pica no chão”. Naquela época, o pessoal costumava encontrar-se na zona do Mercado. Se era para ver televisão dirigíamos-mos ao Café Bracarense (Café da Praça) ou à casa de Pasto a “Socorra”, quando era petiscar e beber umas canecas o estabelecimento preferido era a Casa de Pasto Luso-Brasileira. Certo dia o Manel em conversa com o proprietário desta última referiu que tinha em casa um grande “pica no chão” que dava uma grande arrozada. Solicito e para ganhar algum, o interlocutor disse-lhe que preparava o “bicho” gratuitamente e que na comezaina apenas cobraria as bebidas. Está feito, rematou o Manel. Acontece que não existia nenhum galo ou frango ou algo que se parecesse. Porém, perto da taberna/mercearia do Sr. António, também conhecido por “picinhas”, era visto um grande bando de galinhas. Efectivamente, as aves andavam à solta durante o dia e apenas eram recolhidas no galinheiro à noite. Ganhava relevo um grande galo, sarapintado com cores preta e branca, uma grande crista e devia pesar cerca de 5 kg. Numa Sexta-Feira, pela manhã, o Manel, quando passava para a pedreira, pensou para consigo, vai ser este a vítima. Dito e feito, pela hora do almoço, aproveitando a grande azáfama vivida na taberna, dado que ali também serviam refeições, silenciosamente e com rapidez, o nosso homem, apanha o galo, mete-lhe a cabeça debaixo da asa e guarda-o debaixo da gabardine. Leva-o rapidamente para a Casa de Pasto onde o entrega ao proprietário, ao mesmo tempo questiona-o no sentido de saber o que era preciso para cozinhar o super frango. Foi-lhe dito que era necessário, meio quartilho de azeite, igual medida de vinagre, uma chouriça, uma cebola, sal e um kg. de arroz. Nesta conformidade, depois das 17,00 horas, após largar o trabalho, o Manel passa na mercearia do Sr. António, onde efectua a compra dos artigos indispensáveis para cozinhar a ave. Esta compra merece o seguinte comentário do proprietário da mercearia: Óh Manel vai haver pito. Este respondeu-lhe: Não “Sôr Antone”, não é pito. Então efectua a descrição exacta do animal. É um grande galo “perdez”, com uma grande crista e limpo pesa 4,5 kg, vai dar cá uma arrozada! E deu.
Na recolha dos galináceos efectuada nessa noite a Senhora Marquinhas, esposa do Sr. António, deu por falta do galo e, como é óbvio, deu disso conta ao seu marido. Foi precisamente neste momento que deu conta do pito do Manel. Quando o apanhou na Segunda-Feira seguinte disse-lhe: Anda meu malandro que me roubaste o galo. Ele retorquiu-lhe: Não roubei nada, ele é que quis vir comigo. Aliás o seu prejuízo não foi completo. Não lhe comprei o arroz, a chouriça, o azeite, o vinagre, o sal e cebola? Se sente prejudicado assente no tecto, ao mesmo que soltava a sua gargalhada característica.
Mais peripécias havia para contar sobre o meu grande amigo Manuel Azevedo, mas vou ficar por aqui, sendo certo, como canta o Carlos do Carmo num dos seus fados, ele era um dos capitães da malta… Um abraço amigo.

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