Recordo sempre com assombro o dia que no calendário se identifica como “25 de Abril de 1974”. Encontrava-me em Honde, um pequeno aldeamento, situado na margem da estrada nacional que ligava Vila Pery (hoje Chimoio) a Tete, em Moçambique. Em termos administrativos pertencia a Vila Gouveia (hoje Catandita). Era ali que se encontrava estacionada a Companhia de Caçadores 3495/Batalhão de Caçadores 3874, cumpria o serviço militar obrigatório, encontrava-me em Comissão de Serviço e possuía o posto de Furriel Miliciano, com a Especialidade de Atirador de Infantaria. No dia anterior, uma Quarta-Feira, como responsável pelo 1º Pelotão da já referida Companhia, fui chamado pela chefias, para me preparar para que no dia seguinte, pelas 04,30 horas, saísse para escoltar uma personalidade do Governo Provincial que iria visitar a construção da barragem de Cabora Bassa, o nosso trabalho consistia em escoltar a referida coluna entre o cruzamento da estrada nacional com o Rio Pungué, era ali que se iniciavam as escoltas militares, e Vila Gouveia. Obviamente que esta Operação Militar inopinada me deixou bastante nervoso, na medida em que já possuía, como se dizia na gíria militar dois meses de “mata-bicho” e, por outro lado, não era muito comum efectuar operações deste género. Havia sempre a possibilidade de encontro com o inimigo e se, em tempos, tal situação não me incomodava muito, naquela altura do “campeonato” o temor de morrer ou ficar estropiado importunava-me bastante. Por tudo isto e também pelo calor e pela humidade a noite estava a ser muito mal dormida. Seriam cerca das 03,00 horas quando alguém me chamou. Efectivamente, presumi que já seriam horas para preparar o pessoal e as viaturas, por consequência, resignado com o meu destino lá me levantei com os espírito do costume, a tarefa, por muito difícil ou por muito que nos custasse, iria ser realizada. Todavia, para minha surpresa constatei que quem me chamava era um dos elementos do posto de comunicações. Tal facto não era muito comum pois estas ordens partiam sempre das chefias e éramos sempre convocados para o posto do comando para as receber. Consequentemente, indaguei-o sobre a origem e o porquê daquela abordagem. Referiu-me que havia sido o Capitão que lhe ordenara que me transmitisse a ordem, dado a hora excepcional em que a mesma tinha chegado ao aquartelamento. No que concerne à origem apenas me disse que tinha vindo do Comando do Sector. A minha surpresa ainda aumentou quando me referiu que a escolta que se encontrava prevista tinha sido anulada. Face a esta situação voltei para vale de lençóis e a partir daqui, não há dúvida, que dormi muito melhor.
Na manhã de Quinta-Feira, dia 25, reparei que havia qualquer coisa na atmosfera que não estava bem. O Rádio Clube de Moçambique, não se encontrava no ar. A Emissora Oficial de Angola, apenas transmitia marchas militares. Na verdade, o que nos ligava ao mundo eram aquelas emissoras, bem como o nosso posto rádio, pelo que para lá me dirigi, contudo, lá sabiam tanto como eu, isto é, nada.
Por consequência, comecei a sintonizar a telefonia em emissoras rodesianas ou sul-africanas que, obviamente, transmitiam em inglês. A determinada altura lá consegui perceber, aquando da leitura do noticiário, que em Lisboa tinha acontecido um levantamento militar. Porém, nada mais era acrescentado. Realmente passei o dia tentando saber o que na realidade tinha acontecido na Metrópole. Mal sabia ou sonhava que tinha sido quebrado o jugo da ditadura e que tinha nascido a liberdade que muitos políticos, presentemente, desbaratam sem pudor e de forma vergonhosa. Vinte e Cinco de Abril sempre.
No espírito do que penso ser o que se viveu e sentiu na altura, pelos relatos que ouço e imagens que vejo pela TV ou cinema, sem querer ousar comparação mas desejando-o, voto para que essa vontade e energia de mudança que outrora se sentiu, volte...
ResponderEliminar