Sequestro em tempo de Semana Santa
Decorria a
última semana do mês de Março viviam-se as férias da Páscoa, a temperatura do
ar, nesse ano 1964, era exageradamente alta, embora pudesse parecer desusado o
ar cálido já convidava a uns mergulhos. Todavia, os rios Cávado e Homem
distavam bem longe e a nova piscina do Parque da Ponte, por razões óbvias,
estávamos no início da Primavera, ainda não tinha aberto ao público. Nesta
conformidade, um grupo de sete rapazes do Bairro, resolveram ir até à Quinta da
Ordem com o intuito de, pelo menos, molhar os pés na água fresca e cristalina
do lago artificial existente naquele local, a fim de refrescarem um pouco.
Saltaram o
muro, junto ao campo de futebol e ali, numa peladinha de três contra três,
resolveram matar o vício da bola, a correria ainda provocou mais calor, pelo
que ao fim de meia hora, a suar em bica, resolveram descer até ao lago e não
foi para molhar os pés. Todos eles, até o Alfredo, um petiz de 3 anos que para
ali tinha sido levado pelo seu tio Marco, um mocetão de 16 anos, se desnudaram
e “catrapuz” para dentro da água. Uns a nadar, outros a mergulhar e, ainda
outros a navegar no batel que ali se encontrava ancorado. Que delícia,
realmente era o paraíso na terra.
Porém, não há
bela sem senão, sorrateiramente chega ao local o feitor da Quinta dos Padres e
de forma dissimulada, apanha o vestuário da rapaziada, com ela num braçado e
com a mão livre brandia um cajado e gritando bem alto, disse:- Acabou a festa,
meus meninos! Todos fora da água e formem aí em fila. Que ninguém tenha a
ousadia de fugir, pois vai fazê-lo nu e ainda leva umas vergastadas nas costas
para recordar o momento. Paralelamente levantava bem alto o vara-pau para, deste
modo, reiterar a ameaça proferida.
Sacou do molho
da roupa as cuecas pousando-as no solo, dizendo que cada um fosse buscar as
suas. Assim foi feito, pelo menos a rapaziada tinha as mãos livres, já não
existia a necessidade de, com as mesmas, estar a encobrir as ”partes baixas”.
Seguidamente, o feitor deu a ordem de, em “bicha pirilau”, seguir para a sede
do Seminário. Desceram até ao portão da bouça, atravessaram a estrada de São Martinho
e seguidamente entraram na quinta. Contudo, antes de chegarem ao edifício do
Seminário, o bando foi mandado parar e que se sentassem, no chão, debaixo de
uma latada frondosa. O feitor dá uma forte assobiadela e momentos depois chega
ao local, um indivíduo, um pouco mais velho do que o Marco que era o mais velho
dos “sequestrados” tratava-se de um dos criados da quinta. Determinou-lhe que fosse
chamar o Padre Pinheiro, pois vai ser ele o juiz que vai julgar atitude de intromissão
em propriedade alheia, perpetrada por aqueles jovens.
Sem produzirem
qualquer som, olhavam uns para os outros com receio daquilo que viesse a
acontecer. Chamar a Polícia? Mandar vir ao local os pais? Levar um “arraial de
porrada”, na verdade tudo de mau lhes passou pelo pensamento. Nenhum deles
sabia qual era o melhor ou pior castigo. Nesta conformidade, apenas lhes
restava esperar e que o Padre compreendesse a situação e fosse benevolente, no
fim de contas estávamos na Páscoa, tempo de Redenção!
Após desmedida
angústia, cerca de duas horas depois, arriba ao local o tal Padre Pinheiro,
eram cerca das 17 horas, a qualquer momento ocorreria o ocaso. Mirou os rapazes
de alto a baixo, e com voz firme, chamou-os a atenção do evento que praticaram,
de facto além de ser pecado agravado, estávamos na semana santa, além do mais o
ato era crime punido por lei. Esta acção já era reiterada, a intromissão, sem
autorização, na Quinta da Ordem era bastante comum e nunca mais finalizava,
consequentemente eles seriam a lição a dar a quem, no futuro, voltasse a
prevaricar. Por conseguinte ia entrega-los à Polícia. Neste preciso momento, o
pequeno Alfredo começa a chorar copiosamente, as lágrimas lavavam-lhe a face, o
Sacerdote fica admirado com a reacção do petiz. Aliás estranhou o facto de ser
somente o mais pequeno a reagir à ameaça, na medida em que os restantes, todos
entre os 13 e os 16 anos, nem tugiam nem mugiam, calados que nem ratos. Nestes
termos, o pequeno é indagado pela razão do pranto. Respondeu ainda soluçando
que tinha fome. O interrogador perguntou aos restantes se, durante a tarde,
tinham comido alguma coisa. Estes, sem falar, responderam negativamente
abanando a cabeça. Nesta conformidade, mandou o criado que fosse à loja buscar
umas maçãs. No entanto, nunca deixou de continuar a repreender veementemente a
rapaziada. As maçãs, entretanto, chegam, eram cerca de vinte e transportadas
num alguidar de barro. O sacerdote colocou-as à disposição da rapaziada e
estes, receosos, lá iam pegando numa peça de fruta e comendo-a vagarosamente,
com o temor até lhes custava engolir. Na realidade não percebiam muito bem a acção do padre, dava-lhes cabo da cabeça e depois ofertava-lhes maçãs! Hum, há
aqui qualquer coisa que não joga bem…
Quando sol já
se escondia no horizonte, o representante do Seminário mostrou uma folha em
branco e um lápis e disse a cada um deles que escrevesse o seu nome e a sua
morada, aquele documento iria ser arquivado, mas futuramente iria ser usado,
junto da polícia, se o caso da intromissão se voltasse a repetir. Cada um
cumpriu o determinado e, em uníssono, pediram desculpa e que o caso não
voltaria a repetir-se. Espero que sim, tenho esperança que isto vos sirva de
exemplo, respondeu o Clérigo, ao mesmo tempo que os mandava sair das
instalações do seminário.
Saíram, sem
olhar para trás, não vá o reitor arrepender-se. Subiram para o Bairro da
Misericórdia pelo Bairro de São Martinho, quando chegaram às suas residências
já era noite, todos eles ainda traziam no bolso uma ou duas maçãs. Antes de se
despedirem ainda tiveram oportunidade de comentar:- Não chegou para o susto,
mas um dia destes, repetimos a façanha. Ainda assim para a próxima deixaremos
alguém de sentinela! Não vá o diabo tecê-las, outra vez.
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