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Inauguração do Bairro da Misericórdia.



Inauguração do Bairro da Misericórdia


Corria o ano de 1950, o Estado Novo, com o intuito de propagandear o 24º ano da Revolução Nacional, em carteira, na cidade de Braga possuía para inaugurar o belíssimo Estádio de Futebol, ladeado por uma pista de atletismo, construído no frondoso Parque da Ponte, que, aliás iria ser baptizado com o dia da revolução - 28 de Maio. Em termos sociais tinha o Bairro da Misericórdia, um aglomerado de casas que serviriam para residências sociais, principalmente para serem ocupadas por gente desalojada oriunda da Rua das Águas que foi reclassificada para dar lugar à Avenida Marechal Gomes da Costa (depois do 25 de Abril de 1974, Avenida da Liberdade) e da parte noroeste da Avenida Artur Soares, que foi aberta para dar passagem para a zona da Cadeia. Efectivamente foi construído na novel Freguesia de São Vicente, na parte sul da cidade pela Santa Casa da Misericórdia em terrenos doados à instituição pelo Abade da Loureira, Padre António Dias da Silva.
O dia tinha nascido envergonhado, todavia, notava-se o esforço do sol para se esgueirar por entre a imensa camada de nuvens, dando a impressão que a soberba estrela não queria faltar a aquela demonstração pública de alegria. No Bairro, uma espécie de Comissão de Moradores, chefiada pelo Senhor Gonçalves, esmerou-se no sentido de alindar o recinto com festões, bandeiras azuis e brancas, cores da cidade e vermelhas e verdes cores nacionais, as ornamentações eram visíveis no inicio das Ruas Dom Francisco de Noronha, Silva Cunha e Dias da Silva, bem como na totalidade da Rua Graça Júnior, na medida em que as cerimonias oficiais iriam decorrer junta à nova Escola Primária daquele aglomerado populacional. O fogueteiro da Ponte da Barca já tinha preparado o fogo-de-artifício a ser lançado para lembrar, com estrondo, às pessoas a festividade e solenidade do dia.
A primeira entidade a chegar ao local foi o Provedor da Santa Casa que, junto do representante dos moradores se inteirou da situação. Realmente, não tinha faltado nada, tudo limpinho, o palanque no sítio, instalações sonoras a funcionar, as meninas designadas para oferecer o ramo de flores e as tesouras a Sua Excelência o Ministro da Obras Públicas, Engenheiro Frederico Ulrich, o foguetório aposto, enfim tudo no seu sítio. Arriba a Banda de Música da Oficina de São José, que se coloca junto ao estrado que vai alojar todas as entidades oficiais. Para gáudio da pequenada que por ali já proliferava como diz a canção “ pareciam um bando de pardais…”, os músicos começaram a treinar tocando a marcha da “Maria da Fonte” que iria ser a música oficial do evento.
Chega o Senhor Presidente da Câmara Municipal O Comendador António Maria Santos da Cunha, o que na realidade fez arrancar uma forte ovação a população, pois era figura mui querida da mesma. No entanto, com o seu dinamismo e apego às coisas bem-feitas colocou toda gente num rodopio com o intuito de receber bem o representante do Estado.
Três bombardas a estourarem, sinal que as figuras nacionais que faltavam estavam a chegar. Realmente a abrir o cortejo um automóvel da PSP e daquele que o precedia emergem Sua Eminência o Arcebispo Primaz de Braga Dom António Bento Martins Júnior e respectivos acólitos. O seguinte transportava o Governador Civil de Braga o Oficial do Exército, agora também Comendador Armando Nery Teixeira e naquele que encerrava o séquito, sai o Ministro das Obras Públicas, Engenheiro Frederico Ulrich. Mais foguetes, a banda carregava fortemente na marcha, os aplausos eram imensos, a criançada corria atrás das canas dos foguetes, mas a maior parte delas perdiam-se na Quinta das Amoreiras e quintas adjacentes, logo impossíveis de alcançar. Era, de facto, uma festa bastante animada. Iniciam-se as cerimónias com a bênção doada pelo Sr. Arcebispo. Corta-se a fita do costume, com uma tesoura colocada numa bandeja de prata que uma linda menina, que trajava um vestido branco e que face a sua pequena estatura, em bicos de pés fez chegar às mãos do Ministro. Depois do corte uma outra criança fez chegar ao Engenheiro Ulrich um bonito ramo de flores e este, como era da praxe, retribuiu com um ósculo. Discursam as entidades, começou o Provedor, intercalou o Presidente da Câmara e o representante dos moradores, Sr. Gonçalves e finalizou o Ministro. O teor dos mesmos foi o que na época se achava o que era o politicamente correto, porém, face ao carisma e à forma muito própria e carregada de emoção o discurso do Comendador Santos da Cunha, embora construído em cima de frases feitas, fez verter algumas lágrimas de felicidade e emoção na maior parte dos moradores ali presentes.
Encerra-se o ato solene ao som do Hino Nacional e o hastear da Bandeira Nacional no mastro da Escola Primária.
Com a mesma pompa e circunstâncias as entidades locais e nacionais deixaram o Bairro, contudo as girândolas não pararam, a Banda continuou a tocar e a festa continuou, não digo a ter ser dia, mas até ser noite.
E foi assim que há SETENTA ANOS, nasceu o Bairro da Misericórdia, berço e palco de muita gente boa.
Parabéns a todos bairristas.

                                                                 
                                                                 

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