Avançar para o conteúdo principal

Contribuição humana do Bairro da Misericórdia para a guerra colonial



Contribuição humana do Bairro da Misericórdia para a Guerra Colonial.

Antes da narração, para os que não sabem, o Bairro da Misericórdia, situa-se na Freguesia de São Vicente, em Braga, foi iniciada a sua edificação ainda nos anos quarenta do século passado, pela Santa Casa da Misericórdia de Braga. Tem uma rua principal (Dom Francisco de Noronha), liga a Rua Abade da Loureira à zona da cadeia, e as restantes nasceram a este e a oeste da mesma. Embora atualmente todas sejam alcatroadas ou empedradas, durante anos as ruas laterais era terra batida. A sua ocupação iniciou-se em finais do ano de 1949, princípios do ano 1950. É composto por cerca de duas centenas e meia de residências, todas elas geminadas aos pares, a maior parte em duas e algumas em quatro, variam entre T2 e T4, estes últimos são duplex, contudo todas possuem, nas traseiras um pequeno quintal e, no princípio da ocupação todos os locatários, na frontaria das casas montaram um pequeno jardim que dava um aspeto bastante pitoresco ao aglomerado habitacional. Também foi construída a Escola Primária. Os edifícios públicos que se situam junto ao Bairro, são o Estabelecimento Prisional de Braga (Cadeia) e, presentemente o Estádio Axa, onde o Sporting Clube de Braga disputa os seus jogos.
Vamos ao assunto, como é do conhecimento geral a guerra colonial que Portugal travou nas suas ex-colónias, começou em Angola no ano de 1961, um ano ou dois após, iniciaram-se as escaramuças na Guiné e em Moçambique. Neste momento não é nossa intenção falar da justeza dessa guerra, pois, a meu ver, não existem guerras justas ou injustas, elas surgem porque a raça humana não tem a capacidade de diálogo para resolver as suas diferenças. Todavia, a minha geração e as anteriores foi obrigada a participar numa contenda e ao fazê-lo procurou cumprir o seu dever de soldado. No Bairro da Misericórdia, por vezes, o tema da conversa nas noites de fim-de-semana era o facto de bastantes de nós, mais de uma centena, terem ido à peleja e quase todos regressamos incólumes, em termos físicos. Acho que existem duas exceções que foram feridos, ligeiramente, por estilhaços, é o caso do Augusto Jorge, em Moçambique e do António Rocha, em Angola. Porém, ninguém foi vítima mortal durante as escaramuças.
Efetivamente houve representações em todos os ramos das forças armadas, na Força Aérea, tivemos o Jorge Félix, os irmãos Virgílio e Paulo Ferreirinha, o Raúl Coelho e o Filipe Lima, dentro deste ramo, nas Forças Paraquedistas, tivemos o João Pereira e o António Malheiro. Na Marinha, tivemos o Hermínio Vieira e no Exercito, tivemos mais de uma centena. Recordo-me que os primeiros a marchar foram o Dionísio Braga e o Álvaro Pacheco, lembro-me, também, que aquando do regresso do Dionísio, um grupo de rapazes do Bairro, juntou-se à família e foram receber em festa, à Estação dos Comboios, o combatente que regressava a casa. Seguidamente marcharam o Lino Veloso, o Manuel Azevedo, o Francisco Sousa, o Álvaro Pinto, o Armando Barros, o Raúl Martins e o meu irmão mais velho, José Guimarães.
Algumas famílias tiveram três elementos na guerra: A família Braga, Dionísio, em Angola, o Alberto em Moçambique e o Gaspar na Guiné. A família Ferreira Rocha, António e Juca em Angola e o Rui em Moçambique, este também esteve em Angola a tirar o curso de Comandos. Família Pereira, João, Moçambique, Domingos e o José, em Angola. A família Louro, o Carlos o Zé o João em Angola. Família Cerqueira, o António na Guiné, o Luís em Angola e o Rogério em Moçambique, este, tal qual o Rui Rocha, como Comando também esteve em Angola. Família Matos, o Manuel, o José, em Angola e o Jorge na Guiné. As famílias com dois representantes também abundam: Família Santos, José Francisco, Moçambique e Fernando, Guiné. Família Gonçalves, Domingos, Angola e José, Moçambique. Família Araújo, Narciso, Moçambique e Alberto, Angola. Família Ferreirinha, Virgílio, Angola e Paulo, Guiné. Família Ataíde/Pacheco, Álvaro, Angola e Valdemar, Moçambique. A família do Pirri, um em Angola outro na Guiné. Família Abreu Silva, Fernando, Angola e Chico, Moçambique. Família Monteiro da Rocha, Francisco, Moçambique e Manuel, Angola. Família Fonseca, António, Guiné e Amândio, Moçambique. E a minha, o meu irmão José em Angola e eu, em Moçambique.
Tivemos Oficiais, Sargentos e Praças. O Jorge Félix foi Alferes Piloto Aviador. O Raúl Coelho, Furriel Piloto Aviador; José Guimarães e António Mendes; Furriéis de Engenharia; Afonso e Rogério Cerqueira; Furriéis Comandos; Fernando Pinto e Domingos Pereira, Operações Especiais (Rangers); Amândio Fonseca, Furriel Mecânico; José Gonçalves, Cavalaria/Auto, António Carvalho, Augusto Jorge, Fernando Silva, João Gonçalves, Daniel Costa e o autor deste escrito, Furriéis Atiradores, uns de Artilharia outros de Infantaria. Havia, ainda, um elemento profissional, o 1º Sargento Ferreira. Aliás, a sua última comissão de serviço foi prestada no meu Batalhão (CCaç. 3496/BCaç. 3874). Cabos Especialistas da Força Aérea, os irmãos Virgílio e Paulo Ferreirinha e o Filipe Lima. Na classe das praças foram os que em maior número alinharam, desde Comandos, Operações Especiais, Condutores Auto, Criptos, Maqueiros/Enfermeiros, Escriturários, Mecânicos, Reconhecimento e Informação e muitos Atiradores.
Não sei se é fora do contexto, contudo, também quero deixar uma alusão ao Felisberto Carvalhal e ao Zeca Mendes, não estiveram na guerra colonial, mas foram os primeiros prisioneiros de guerra do Bairro da Misericórdia, estiveram nessa situação quando a India tomou à força as possessões portuguesas naquele país (Goa, Damão e Diu).
É certo que todos nós, uns mais outros menos, passaram pelas agruras da guerra, todos nós vivemos na incerteza se acabaríamos ilesos na longa batalha que durou, para a maior parte, mais de dois anos, mas, uma coisa é certa, acho que sem exceção todos sentiram que cumpriram o seu dever, não discutindo obviamente a justeza da guerra onde nos incluíram. Mas a sociedade, durante muito tempo, esqueceu os seus filhos, realmente, andamos bastantes anos quase como proscritos, éramos quase a vergonha da nação. Felizmente, no presente a situação mudou um pouco, todavia, creio que essa mudança foi ganha a pulso pelos veteranos de guerra, o respeito e algum acompanhamento foi obtido com muita luta. Permitam-se citar o Padre António Vieira “ Se serviste a Pátria e ela foi ingrata, tu fizeste o que devias, e ela não…”
Este escrito pretende homenagear todos os veteranos de guerra do Bairro da Misericórdia e bairros limítrofes, porém, uma homenagem muito especial aos que já nos deixaram: Lino Veloso, Álvaro Pinto, Álvaro Pacheco, José Guimarães, Zeca Mendes, Manuel Rocha, João Araújo, António Cerqueira, Fernando Santos, Carlos Santos (Calito), Carlos Louro João Freitas, António Mendes, Alberto Braga e 1º Sargento Ferreira.

Nota: Pode existir alguma imprecisão ou subtração no tocante a nomes, disso me penalizo, mas se este tema der livro, com certeza que vou ser mais preciso e para isso solicitarei a colaboração dos envolvidos.

Comentários

  1. Homenagem aos mortos e em especial o 1º sargento Ferreira que fez comigo a sua última comissão, em Moçambique - CCAÇ. 3496. Profissional militar competente.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ares serranos. Parte 4

Ares Serranos. Parte 4 A rivalidade entre pessoas, entre grupos, entre localidades, entre regiões, entre países, deve ser tão velha como o homem. Todavia, neste momento e na sequência do desafio que há dias, ocorreu entre a ADR Terras de Bouro e o GD do Gerês. Efectivamente, é por demais evidente que se trata do derby concelhio e desta vez, saiu vencedor o GD Gerês. Não obstante a maior dos atletas do GD Gerês não serem naturais e ou residentes na vila, é bem verdade que na Freguesia, sempre houve tendências futebolísticas, bem como atletas de fino recorte. Lembro-me de falarem no Quim do Dias, que esteve para ingressar no Sporting de Braga, nos 50. Aliás, eu recordo-me muito bem dele das viagens que fiz na viatura de carga e mais tarde na de passageiros da Empresa Hoteleira do Gerês, conduzidas por ele, no percurso Braga – Gerês e volta. Porém, além disso, conta a história que os cidadãos da freguesia de Vilar da Veiga, mesmo em tempos muito remotos já se preocupavam com a educação...

Braga, sempre.

Era uma vez, numa terra muito bonita à beira mar plantada, entre outras várias ocorrências e peripécias, existiam pequenas tribos que, entre si, praticavam um jogo chamado chuto no couro. Havia os azuis, os verdes e os encarnados, digo encarnados porque estes de vermelho nada tinham, já que a tal terra quando era governada, ditatorialmente, por um indivíduo chamado Sala e Azar, embora muito lhes custe a engolir, era a tribo do regime. Durante este regime estes encarnados ganhavam quase tudo, muito embora, às vezes, tais vitórias não fossem muito claras. Eram famosos os roubos de catedral. O campo dos lampiões era fortim afamado, pois era muito bem guardado por homens de fato preto, consequentemente, nenhum adversário tinha hipóteses de sair de lá a ganhar alguma coisa. Entretanto, aconteceu uma revolução que também se repercutiu no jogo chuto no couro, pelo que os verdes, os axadrezados e, principalmente, os azuis começaram a ganhar. Aliás, os azuis também começaram a ganhar no Cont...

A minha Escola de Futebol 3

Na continuação da saga da minha escola de futebol, desta vez vou dedicar a escrita ao Campo de Baixo. Este campo situava-se entre as traseiras das primeiras casas da ala esquerda da Rua Dom Francisco de Noronha e a congosta que existia entre este campo e a Quinta das Andorinhas, ou a Quinta do Rascão como nós a denominávamos. Apelidávamos a exploração agrícola deste modo, pois o caseiro ou proprietário da altura chamava-se Rascão. Era principalmente um campo de Verão, na medida em que no Inverno tornava-se num autêntico lamaçal pelo facto de ali desaguarem duas linhas de água. A par de recinto de jogos de futebol era também um local onde passávamos muito tempo, aproveitando a linha de sombra proporcionada pelos choupos existentes em paralelo com o muro que delimitava o campo e a congosta, jogávamos às cartas. Esse jogo, normalmente era o “montinho”, todavia, também se jogava à “pedida” e ao “sete e meio”. Efectivamente o que movimentava esse jogo de cartas eram as apostas que se f...