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Omar, onde a saudade castiga mais...




Omar, onde a saudade castiga mais...

Era mais um dia para cortar no calendário, era o centésimo dia que passava em Omar, era, por mera coincidência, o dia de São João do ano da graça de 1972. Efetivamente acordei cedo, com a sensação que o dia não me ia correr bem e com a lembrança saudosa da noite anterior, em circunstâncias normais estava-me a deitar e não a levantar, pois tinha sida a noite de véspera de São João, em Braga. Na minha cidade, esta noite é muito especial, goza-se a festa até ao raiar do dia. Mas a realidade era outra, estava na guerra. O meu grupo de combate encontrava-se de serviço à recolha e distribuição de água, seriam cerca de 4,30 horas, o sol já se vislumbrava para além da escarpa do planalto maconde. As berliets, três, carregadas com bidões de 200 litros, sendo certo que cada uma levava um atrelado com um depósito de cerca de 600 litros de capacidade, já se encontravam alinhadas junto ao portão sul, com o motor a trabalhar. Após a verificação das armas, do morteiro, ainda avisei o João Gonçalves, para verificar que bala é que tinha introduzido na camara da G3, dado que ele levava cinco dilagramas na missão e um deles já se encontrava na ponta do cano da arma, todas as questões foram respondidas afirmativamente. Nesta conformidade, foi dada ordem para avançar. Entre o aquartelamento e o ribeiro onde se recolhia a água não distavam mais de 2 Km, não se picava, todavia, na frente da primeira viatura iam, apeados dois elementos em cada rodado, a fim de verificar se as marcas dos pneus deixadas na viagem anterior ainda estavam visíveis, caso existisse alguma dúvida logicamente que se verificaria se algo de anormal se passava, picava-se e se, necessário fosse, também se passava o detetor de metais. Porém, nesse dia estava tudo normal, consequentemente, ao fim de quinze minutos estávamos à entrada do largo da água, o Abrunhosa que era o apontador de morteiro, ainda me perguntou: Furriel, bato a zona. Isto vem a propósito, porque aquele local era de perigo eminente, pois ficava num pequeno vale e, portanto susceptível de ali ser armada uma emboscada pelo IN. Aliás, a Companhia que rendemos sofreu naquele local, uma surtida da Frelimo que lhe provocou baixas. Mas aquele dia era São João e apenas por intuição e porque o Santo Padroeiro da minha cidade não me deixaria ficar mal, respondi: Hoje vamos proceder à operação em silêncio. Por conseguinte, as viaturas avançaram, contudo, quando se preparava o motor de tirar água, foi constatado que o caudal do ribeiro era um pequeno fio do precioso líquido. Mais chatices e mais trabalho, realmente lá se pegou nas pequenas enxadas e nas pás existentes nas viaturas e começou a escavar-se o leito, com o intuito de criar uma poça capaz de criar um depósito onde o tubo de sucção do motor fosse eficaz. A meio da operação, foi com espanto que um dos cavadores me informou: Furriel está aqui um peixe. A princípio supus que fosse brincadeira, pois nunca ali tinha sido avistado qualquer peixe, mesmo quando o ribeiro parecia um rio, e nesta altura, tempo das secas, com o leito quase seco parecia um paradoxo. No entanto fui-me aproximando e, na verdade, nas mãos do Silva rabiava um peixe, feio como tudo. Tinha uma grande cabeça e os uns grandes bigodes, apelidei-o de peixe-gato, ofereceu-me o animal para a refeição, mas recusei e disse-lhe que os tesouros pertencem ao achador. Logo, o peixe era dele e que fizesse do bicho o que bem lhe apetecesse. Nem este episódio pitoresco me tirou a nostalgia que me atacava. A operação de encher todos os depósitos que, normalmente demorava trinta minutos naquele dia demorou cerca de duas horas, até ao ponto de ter sido contactado, via rádio, pelo aquartelamento questionando-me os motivos da demora em regressar ao quartel. Felizmente, nesse dia a operação terminou sem qualquer tipo de perigo. Cerca das 7,00 horas estávamos em Omar.
Na realidade continuava com aquela sensação que as coisas não iam correr bem, tomei o pequeno-almoço e peguei num livro, comecei a ler a obra “ Cento e um tiros de canhão”, de Henry Troya, um romance que se passava na revolução bolchevique, este romance está dentro do contexto da obra de Gorky “A Mãe”. A meio da manhã o macaco Zeca, pertencente ao meu camarada Fausto, soltou-se da sua corda que o privava da liberdade e começou a deambular livremente por todo o quartel, pelo que a minha leitura foi interrompida. A “fera” era perseguida pelo seu dono, ajudado por mais dois ou três camaradas, o bicho acossado mais assustado ficava, a determinada altura refugiou-se na Secretaria e começou a espalhar a papelada quase causando um enfarte ao 1º Sargento Figueiredo, parecia que o fazia de propósito, a muito custo, o Fausto lá conseguiu apanhar o seu animal de estimação. Aliás, esta atitude provocatória dos macacos não era nova. Certo dia, quando andávamos em missão de patrulhamento, perto do Lago Lidede, numa altura em que estacionamos para almoçar, começamos a ouvir um forte restolho nas copas das árvores, era um grupo de macacos que por ali vagueava. Quiçá defendendo o seu território, quando nos avistaram começaram a agredir-nos com frutos que recolhiam dessas mesmas árvores. Apesar de caricato e cómico, nem o episódio do Zeca me animava, a melancolia persistia.
Veio o almoço, veio a futebolada da tarde, veio o jantar, na “hora maconde” veio a ida para as valas em prevenção a um eventual ataque à morteirada, mas nada de anormal aconteceu, mas a melancolia e a nostalgia não me largavam. À noite quando já deitado, pensei que a causa do mal-estar era, simplesmente, a saudade ou “home sick” como, dizem os ingleses. Saudade da casa, da família, dos amigos, da minha terra e do São João, a custo lá adormeci. Amanhã vai ser outro dia e foi …

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