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Histórias do Bairro, 2.


Histórias do Bairro 2.

Neste capítulo, desta vez trago a lume algumas histórias do Zé Maria. Esta figura que através do tempo extravasou a freguesia de São Vicente (Vivia no Bairro Senhora do Monte, trabalhava nas Palhotas e convivia bastante no Bairro da Misericórdia), muito por culpa do seu grande amor pelo SL Benfica, um pequeno amor pelo SC Braga, um grande ódio pelo Vitória de Guimarães e uma aversão pelo FC Porto. Esta figura que presentemente deve estar a chegar aos setenta anos de idade, é um ser especial, já que sofre perturbações mentais. Todavia, sempre teve e tem um comportamento social meigo e educado, saindo dos “carris” se for incomodado por via da maledicência do SL Benfica ou dos seus atletas. Algumas pessoas que se dizem sãs, em termos mentais, arreliam-no e depois de enervado não podem com ele. Algumas vezes me perguntei, quem era o deficiente, o Zé ou quem o cutucava. Mas, adiante. Agora a figura é o Zé Maria.
Vou recordar duas ou três histórias. Em primeiro lugar quero afirmar que o Zé é amigo e leal. Na minha adolescência, portanto nos anos sessenta, principalmente no Verão, de noite, na Rua Costa Palmeira, entre dois postes de iluminação, por vezes, jogávamos umas partidas de futebol. Nessa época quase todas as casas do Bairro, na sua frontaria tinham um pequeno jardim. Nessa rua, o Sr. Francisco tinha um gosto enorme no seu quinteiro ajardinado. Efectivamente, quando nos pressentia no jogo da bola, sorrateiramente colocava-se em estado de vigia e quando a bola caía no que era seu, ele de imediato apanhava a redondinha e com um canivete inutilizava-a. Porém, certo dia um dos jogadores, que não vale a pena identificar, apanhou o Sr. Francisco agachado para apanhar a bola, deu-lhe um empurrão, jogando-o para cima das flores e impedindo-o de destruir mais uma bola. Este caso originou que por uns tempos os jogos fossem interrompidos e o Sr. Francisco participasse os factos na PSP. Face a esta situação, um dia ou dois depois, quando nos encontrávamos, na conversa, no muro da Dona Jaquelina, parte oeste da Rua Costa Palmeira, vimos a dobrar a curva da Rua Dom Francisco de Noronha, o carro patrulha da PSP. De imediato ligámos esta situação à vivida dias atrás com o Sr. Francisco, pelo que, imediatamente, fugimos para Rua Adriano Simões, que se situa por baixo do já citado muro. Quando disse fugimos, não disse totalmente a verdade, já que houve uma excepção que foi o Zé Maria. Os Agentes da PSP, saíram da viatura e de imediato se dirigiram ao Zé, contudo, foi grande a sua frustração quando verificaram quem era o abordado. Realmente, já o conheciam, mesmo assim, ameaçaram-no que o levavam preso se não identificasse os rapazes que ali estavam. Porém, o Zé Maria respondia: “ Num sei puliça, são os rapazes do bairro”. Os Agentes, cada vez mais ameaçadores, apertavam com o Zé. Sim sabemos que são os rapazes do bairro, mas tu tens que dizer os seus nomes ou as alcunhas, se não o fizeres vais tu para a cadeia. Mas o Zé, firme como uma rocha, mais uma vez dizia: “ Num sei puliça, são os rapazes do bairro”, não chibando ninguém. A cada insistência da Polícia o Zé respondia da mesma forma, até que desistiram, deixando o local. Nós em baixo a ouvir o interrogatório e bastante admirados pois aguentou-se até ao fim. Para agradecer ao Zé Maria, até os portistas e sportinguistas, desta vez, teceram loas ao Benfica o que o deixava quase em êxtase.
Nesse período, quando falecia um “descamisado” ou um sem família no Hospital de São Marcos, em Braga, a Santa Casa da Misericórdia encarregava-se da realização do funeral. Numa dessas situações, estava o Sr. Joaquim da “Funerária”, na altura funcionário da Funerária de São Vicente, também residente no Bairro da Misericórdia, achava-se na Igreja do Hospital com um féretro para sair, para o Cemitério de Monte d´Arcos. Estava a urna na carreta, o Capelão do Hospital (o saudoso Padre Varela) e como se tratava de um solitário, não havia ninguém, nomeadamente um acólito para encabeçar o cortejo fúnebre. O Sr. Joaquim viu o Zé Maria a passar e pergunta-lhe: Ó Zé queres ganhar cinco coroas? Este respondeu que sim. Nesta conformidade, enfiou-lhe a vestimenta de acólito e meteu-lhe nas mãos um crucifixo que em conjunto com a haste devia medir cerca de metro e meio. Assim, lá saiu o enterro da Igreja do Hospital, subiu o Largo Carlos Amarante, Rua de São Marcos, Largo Barão de São Martinho, Avenida Central e aqui é que foram elas. Quando passavam em frente ao Café Astória, alguns alunos do Liceu Nacional Sá de Miranda que ali costumavam parar, quando constataram que era o Zé Maria quem encabeçava o funeral, depressa lhe gritaram: - O Benfica não presta. O Zé ainda se segurou. Mas desta vez o insulto foi mais grave: O Benfica é uma merda. Aí o Zé não se conteve. Numa correria, e apelidando todos de “fara puta” abandonou o funeral dirigindo-se ao grupo e ia distribuindo golpes de crucifixo, a torto e a direito, procurando atingir aqueles que estavam a injuriar o glorioso. Um caos, entre risos e galhofas, o Sr. Joaquim lá teve que imobilizar a carreta, acalmar o Zé e passar um raspanete aos estudantes e só assim se pode prosseguir com o acto religioso.
Noutra ocasião, a seguir ao 25 de Abril de 1974, fomos e levámos o Zé connosco, a um comício do PCP ao Teatro Circo, estávamos nas filas da frente. O primeiro orador foi o falecido Dr. Soeiro. Efectivamente, como grande orador que era proferiu um discurso bastante efusivo e entusiasmante. Na realidade, a euforia era tão grande que ele já quase num clima de arrebatamento e contemplação mística, acabou o discurso com gritos de vitória, vitória, vitória… O Zé não esperou, sem que nós o pudéssemos impedir, levantou-se e gritou para o Dr. Soeiro: “bitória de marães, faraputa… bitória de marães faraputa”” e ia tentando chegar ao palco, para tirar desforço do suposto adepto Vitoriano. Depressa o agarramos e abandonamos a sala. Quando nos encontrávamos nos corredores de acesso já com o Zé mais calmo, ainda fomos abordados por uns “comissários” do PCP, pois presumiram que nós eramos da “reacção” e estávamos ali para boicotar o Comício. Sanado o episódio lá saímos do Teatro Circo sem poder assistir ao Comício na sua totalidade.
Outro episódio, este já passado nos anos oitenta. De facto, no âmbito profissional, foi-me distribuído, para cumprimento, um Mandado de Captura, não direi de um amigo meu, mas de um conhecido morador no Bairro de São Martinho e para não ferir susceptibilidades, vou-lhe dar o nome fictício de “Ademar”. Conhecedor das rotinas do indivíduo a capturar, preparei a captura para um fim de dia princípio de noite, pois sabia que o Ademar, no fim do trabalho, descia sempre a pé a Rua Abade da Loureira e parava no Café Brasil. Na verdade, o Ademar não quebrou as rotinas, já era de noite quando o avistei, deixei-o entrar no café, disse ao meu colega para vigiar a porta do estabelecimento e sozinho abordei-o ao balcão, apenas lhe disse para pagar o café e para me acompanhar até à viatura pois tinha necessidade de falar com ele. Percebeu o que se estava a passar e sem qualquer alarido acompanhou-me e, como é óbvio, entrou na viatura policial. Para evitar qualquer tipo de publicidade prescindi de efectuar alguns procedimentos de segurança e na maior das calmas lá iniciamos a viagem até ao edifício da polícia, onde se procedeu a todas formalidades. Posso até dizer que o Ademar me agradeceu a forma sigilosa e discreta como foi efectuada a captura, pois desta forma, foi assegurado o direito, pelo menos para a família, da parte mais odiosa da acção.
No dia seguinte, quando fui tomar o café ao Café Zeman que se situava ao lado do Café Brasil, o seu proprietário logo me informou: Você ontem com um cuidado muito especial para prender o Ademar, mas não valeu de nada, pois logo que começaram a subir a Rua Abade da Loureira, o Zé Maria, virou o pote leiteiro, que trazia, ao contrário e começou a gritar usando-o como amplificador de voz: “Atenção, atenção, o Uís e o Maeiro penderam o Ademar” e repetia com mais entusiasmo “ Atenção, atenção pessoas do bairro, o Uís e o Maeiro penderam o Ademar”. Aqui posso dizer, que se a língua do Zé Maria no primeiro episódio foi um túmulo, desta vez foi um badalo.
Mais histórias havia para contar e talvez um dia me recorde de mais algumas e as traga a público. No entanto, uma coisa é certa, tenho muito carinho pelo Zé Maria, embora com a deficiência que possui é um ser humano muito afectuoso, no fundo é um menino com quase setenta nos de idade.

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