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Razão ou Emoção?


Razão ou Emoção? No decorrer do quotidiano, por vezes, surgem situações      que enfrentamos e que resolvemos, uma vez com o coração, outras com racionalidade. Efectivamente, todos nós podíamos adiantar inúmeras situações do género, na medida em que ninguém tem sempre o sangue frio para agir de modo calculista, nem o contrário, isto é, ninguém tem a cabeça tão “quente” de forma a resolver qualquer problema de maneira emocionada. Todavia, se me é permitido aqui vão dois exemplos destas situações, ocorridos na minha juventude e que se passaram, no mesmo âmbito.
Estava em curso a campanha eleitoral para as Eleições Legislativas de 1969. Realmente foram as primeiras realizadas após a saída do poder do Presidente do Conselho, António Oliveira Salazar. Decorreram num clima aparente de abertura política designado por “primavera marcelista”. Tiveram lugar no dia 25 de Outubro, tendo concorrido quatro listas, a saber: União Nacional (partido do poder); Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (Socialistas e Sociais Democratas); Centro Democrático Eleitoral (Comunistas e outra esquerda) e Comissão Eleitoral Monárquica (monárquicos).
Face ao enorme entusiasmo e à ilusória abertura, desde logo o meu grupo de amigos se apresentou na Rua Justino Cruz, na esquina onde funciona um banco, disponibilizando-se para trabalhar na campanha eleitoral da CEUD. Foi aceite e numa determinada noite, cerca das 22,00 horas, saímos, seríamos um grupo de seis ou sete, com a missão de colar cartazes nas freguesias rurais de Espinho, Sobreposta e Pedralva. Por volta das 23,00 horas, iniciamos o trabalho, com alma e coração na freguesia de Sobreposta, pois era nossa intenção efectuar o serviço de nascente para poente para que o mesmo decorresse no sentido do regresso a Braga. Porém, nem sequer tinham passado dez minutos e começamos a ouvir os sinos a tocar a rebate na Igreja de Sobreposta, ficamos intrigados com o sucedido e em nenhuma circunstância ligamos aquela acção com o nosso trabalho. Só nos apercebemos do perigo quando sentimos uma multidão de cerca cinquenta pessoas munidos de varapaus, sacholas, engaços e outras armas do género, caminhando na nossa direcção, ululando com toda a raiva, bandidos e “morte aos comunistas”, pressentindo a tragédia de imediato o grupo se juntou e com rapidez se dirigiu para a Transit, conduzida pelo João, a fim de abandonar o local pois se houvesse confronto nós ficaríamos, com toda a certeza, a perder. Contudo, o João com o temor de ver danificada a carrinha, que pertencia ao seu patrão, já tinha iniciado a fuga deixando-nos apeados no local e obviamente expostos ao “inimigo”. Esta situação originou a que nós, os coladores de cartazes, encetássemos a retirada a pé e a correr, embora acossados até Espinho, conseguimos concretizar a fuga, correndo à frente da turba. Podem crer que o susto foi muito grande. Quando constatamos que já não éramos perseguidos, recuperamos o folgo, comentamos o sucedido, criticando veementemente a atitude do João, bem como o ataque selvagem da população de Sobreposta, ao mesmo tempo começamos a iniciar, a penates, o regresso a Braga. Acontece que quando já descíamos do Bom Jesus, no local onde os “escadórios” cruzam com a estada nacional, encontramos o João, por sorte dele não levou ali um arraial de porrada porque não calhou. Lá se justificou dizendo que tinha que perseverar a carrinha pois se aparecesse com a dita danificada, no dia seguinte no seu emprego, o patrão começaria a fazer perguntas e, por certo, era despedido. Perdoamos a acção do João e começamos a discutir o que faríamos com o material, que ainda era muito, que se encontrava no interior da carrinha. Concluímos que não o levaríamos para Braga, mas que, pelos motivos óbvios, não voltaríamos ao local que nos estava destinado, pelo que consensualmente, acordamos que iríamos colocar o material na vila da Póvoa de Lanhoso. De facto assim aconteceu. Esse trabalho, desta vez, correu sem qualquer percalço, consequentemente, cerca das 4,00 horas iniciamos o regresso a Braga. Mas não há bela sem senão. Na realidade, numa daquelas famosas curvas da Serra do Carvalho a viatura deixa de trabalhar. Lá saímos todos da mesma. Abriu-se o “capot” para verificar a avaria, debruçados sobre o motor estavam o João e Carlos, que era mecânico, quando sem nada o prever se ouviu um grande estrépito. O pessoal começou a correr desenfreadamente estrada abaixo, por breves instantes eu e o Zé ficamos parados para compreender o que se estava a passar, mas nem falamos, vimos o pessoal numa correria louca pelo que também começamos a correr atrás deles, quando cerca de cem metros mais abaixo os apanhamos, perguntamos: O que é que aconteceu? Respondeu, perguntado o Bé: Então não ouviste a bomba? Desta vez foi o Zé a responder: Qual bomba qual caralho. Foi a merda do “capot” que caiu e provocou esse enorme estrondo. Aí toda a gente parou para pensar e concluiu que, de facto, não podia existir qualquer tipo de bomba, pois se tivesse acontecido a explosão de algum engenho, sobretudo aqueles que estavam perto da viatura teriam sido atingidos, mesmo assim e perante esta explicação e outras, dois ou três, não queriam voltar atrás. Contudo, lá voltou tudo ao normal e depois de consertado a avaria no motor da “transit” regressamos a casa. Moral da história, a acção era desprendida, nobre e efectuada com entusiasmo e emoção, todavia, por duas vezes não ganhamos para o susto, sendo certo que da primeira vez o perigo foi mesmo real.
O segundo episódio também ocorreu nessa altura, um dia ou dois depois dos factos que atrás relatamos. Quando na companhia do Zé e do Carlos, passava junto a Igreja de São Vicente, fomos abordados pela Dona Maria que prosaicamente era conhecida pela criada do Padre Jorge, o então Abade da Paróquia de São Vicente – Braga, que nos solicitou que nessa noite e seguintes afixássemos cartazes da União Nacional. A minha resposta foi imediata, não. Porém, o Zé, com mais calma e já vislumbrando um negócio, referiu: Dona Maria, nós estamos dispostos a efectuar o serviço que nos pede, mas tem que nos pagar qualquer coisa, pois no fim do trabalho precisamos de retemperar as forças. Somos três, portanto vinte escudos para cada um. A Dona Maria achou caro pelo que adiantou que daria somente metade do solicitado. O Zé fez as contas e disse: Proposta final, são 30$00, para dar 10$00 a cada um. A contratante pensou e disse: Negócio fechado. Nesta conformidade, dirigimo-nos à residência paroquial onde a Dona Maria nos entregou cerca de 500 cartazes e o dinheiro referente à paga do serviço. Quando descíamos a Rua da Escoura, com os cartazes guardados num saco eu e o Carlos ainda íamos a remoer com o Zé. Mas se, por um lado, os dez paus nos davam o jeito do “caraças”, na razão inversa não ficaríamos muito bem na fotografia se alguém nos visse a afixar cartazes da UN. Foi nessa altura que o Zé nos sossegou dizendo: Não vamos colar cartazes nenhuns. Mantendo-nos por alguns minutos em suspenso. Ao passar junto de uma fabriqueta de malas que funcionava nessa rua, fábrica onde o Zé já tinha trabalhado, parou e disse-nos para esperar um pouco. Entrou na dita empresa com a totalidade dos cartazes e foi falar como Sr. Gaspar seu ex-patrão. Demorou cerca de meia hora regressando sem o material e com uma nota de vinte na mão. Disse-nos: Já está, vendi o papel todo ao Sr. Gaspar por vinte paus, adiantando que tal papel seria para forrar as malas que ali eram fabricadas. “Esmifra” como era o Sr. Gaspar não ia deixar escapar o negócio. Jocosamente o Zé ia dizendo: Melhor publicidade á UN não podia haver, realmente cartazes da organização iriam para os quatro cantos do mundo, já que o Sr. Gaspar exportava malas para todo o Ultramar português, Brasil e EU da América. Ainda antes do dia das eleições a Dona Maria passou por mim e referiu-me que tinha visto poucos cartazes da UN afixados na cidade de Braga. Então eu respondi-lhe que apenas tínhamos afixado em Braga cerca de duzentos, efectivamente, os restantes foram divididos por Guimarães, Famalicão, Vila Verde, Amares e Póvoa de Lanhoso. Ela olhou para mim com ar de desconfiada, achou fartura a mais, mas ficou por ali.
Neste caso funcionou a calma e o raciocínio do Zé, pois se tivesse usado o coração como eu a resposta tinha sido negativa de forma peremptória. Mas os meus amigos dirão: Vocês enganaram a criada do Padre Jorge e a UN. Eu respondo: Que interessa, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.


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