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Responsabilidade ou solidariedade social.



Responsabilidade e Solidariedade Comunitária.

Nas zonas serranas florestadas, por força da existência de muita matéria combustível o perigo de incêndio é e foi sempre enorme, sobretudo nos dias quentes de Verão, sendo certo que a causa da ignição de tal sinistro pode ser natural ou não. Não existe muita discussão se afirmar que na actualidade deflagram mais incêndios que em épocas transactas. Efectivamente, o aumento significativo de fogos florestais deu-se a partir dos anos 70 do Século passado, obviamente que muitos factos contribuíram para esse efeito, desde factores económicos, sociais até mesmo psicológicos. Porém, como esta dissertação diz respeito à região serrana do Gerês, apenas vamos citar dois que, realmente eram levadas a peito e cumpridos pela população local.
Primeiro, a limpeza das matas era levada a sério, o proprietário que não tivesse limpo o solo das suas bouças era apelidado de mandrião. Por outro lado, era coagido, socialmente, a fazê-lo. Era, na realidade, uma vergonha social manter a floresta ao desleixo.
O segundo era a solidariedade social. Neste particular, dou como exemplo o que se passou num fogo que em 1957 ou 58, ocorreu na zona do Alqueirão, no Vilar da Veiga. Não obstante na altura ter 7 ou 8 anos de idade, recordo-me perfeitamente que era um dia quente de Julho ou Agosto, e como noutras alturas encontrava-me a passar uns dias na casa da minha avó materna, estavam também os meus irmãos José e Carlos. A meio da tarde, os sinos da Capela do Senhor da Saúde começaram a tocar aflitivamente a rebate, começou a notar-se uma agitação tremenda, só se vislumbrava o povo a correr apressada e nervosamente para o local do incêndio bem assinalado por uma grossa e alta coluna de fumo negro, levando consigo machados, sacholas, baldes, sarrafos e outros objectos que pudessem serem úteis no combate à calamidade. Quando eu, os meus irmãos e os meus primos João, José Augusto e Miguel pretendíamos ir para o local fomos barrados pela minha avó. De facto, eu, os meus irmãos e o Miguel fomos, literalmente, fechados no sequeiro e apenas foi dada passagem ao João e ao José Augusto. Quase a sussurrar a minha avó ia avisando para que o silêncio fosse absoluto, ninguém devia saber que estávamos ali. Na altura, não compreendi muito bem a atitude da minha saudosa avó, se no tocante à minha pessoa, ao meu irmão Carlos, um ano mais velho que eu e ao meu primo Miguel, mais novo que eu, ainda vá que não vá, seriam talvez razões de segurança pelo facto de sermos ainda crianças, contudo, o facto de ter que nos encontrar calados, não encaixava bem. Ainda para aumentar a minha confusão foi o facto dos meus primos João e José Augusto serem mandados para o local do sinistro e o meu irmão José, mais velho que eles ter sido obrigado a ficar na nossa companhia. O fogo foi extinto passadas algumas horas e apenas nessa altura é que fomos devolvidos à liberdade. Solicitei várias explicações sobre a nossa detenção, todavia, as respostas dos adultos da família eram sempre as mesmas: Cala-te moço!
Anos mais tarde, já a minha avó tinha falecido, porque aquele episódio não me saía da cabeça coloquei a questão ao meu tio e padrinho Mota. Este com a calma e jovialidade que lhe eram característicos, lá deu a explicação: Era obrigação de toda a população colaborar em qualquer situação que prejudicasse a mesma. Consequentemente, o combate a um incêndio incluía-se nessas obrigações. Mas o receio da minha avó era que o meu irmão José, na altura teria 16 ou 17 anos, pelo facto de ter uma educação citadina não possuísse a destreza necessária para se desenrascar durante a luta contra o fogo, podendo portanto ser vítima de algum acidente grave. Por consequência tratou de o salvaguardar. Outrossim o silêncio imposto durante a reclusão era para que ninguém da população soubesse que ali se encontrava um jovem de 17 anos que se furtou ou foi obrigado a furtar-se às incumbências sociais. Se tal facto fosse conhecido era, na realidade, uma grande vergonha social.
Tal qual o que se passa agora! …


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