A saga brasileira do Mestre Zé.
Com efeito, a emigração de portugueses não é um
facto recente, sempre esteve presente na sociedade portuguesa cuja evolução
ficou mais forte no término do século de XIX e durante o terceiro quarto do
século de XX. Razões econômicas, entre outros de natureza social, religiosa e
política, são as principais causas para a diáspora portuguesa nos cinco
continentes.
Consequentemente,
assiste-se à criação de uma vasta rede de engajadores de emigrantes, que fazem
enormes fortunas exportando mão-de-obra. Os principais portos eram os da
foz do Douro (Porto) e o de Lisboa. Os engajadores recorriam também aos portos
da Galiza. É sobre este tempo que o célebre poema da galega Rosalia de Castro
se refere:- “Adiós, ríos;
adios, fontes;
adios, regatos pequenos;
adios, vista dos meus ollos:
non sei cando nos veremos.
Miña terra, miña terra,
terra donde me eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei,”
A emigração no Brasil tornou-se uma das
principais fontes de receitas do Estado português.
A vaga de emigrantes que aumentou logo após a
abolição da escravatura, cresce ainda mais com a implantação da república em
Portugal (1910).
É aqui que se inicia a saga do Mestre Zé, não
obstante ter já 36 anos de idade, pai de dois filhos, um de 11, outro de 7 anos
de idade e marido de uma jovem mulher com 27, na altura grávida, foi obrigado a
emigrar para o Brasil. A vida já não era fácil, contudo, a implantação da
república apressou esta situação, pois foi vítima de perseguição política, dado
que era monárquico confesso. Durante o ano de 1910 apenas foi alvo de ameaças
veladas, porém, a partir de 1911 e face às movimentações de Paiva Couceiro no
sul da Galiza e incursões em Portugal, Portela do Homem e Chaves, com o intuito
de restabelecer a Monarquia, o Mestre Zé viu-se na contingência de ser preso,
sem nada ter contribuído para isso, pois nunca foi activo ou reactivo em termos
políticos, era simplesmente simpatizante da Monarquia. Em Braga, os militares
já possuíam as ordens de prisão e a sorte dele foi o 1º Sargento Rodrigues, seu
amigo de infância, que prestava serviço no Caçadores Nove daquela cidade que o
avisou dessa situação. Por consequência, numa Segunda-feira do Mês de Setembro
de 1911, sem avisar ninguém, excepto a sua mulher, quando já tinham batido as
trindades meteu os pés a caminho com a merenda a tiracolo em direcção a Braga.
Não olhou para trás, não queria ver os olhos marejados de água da sua Rosa e
dos dois petizes, o Francisco e o Domingos. Ainda não tinha nascido o sol já se
encontrava na Estação dos Comboios desta cidade. Habituado que estava a rudeza
da montanha, nem sentiu o cansaço inerente à distância que distava entre Braga
e o Vilar da Veiga. Logo que a bilheteira abriu comprou um bilhete de 3ª classe
com destino a Porto São Bento. Já era dia quando deixou a cidade dos Arcebispos.
Não obstante o barulho da locomotiva e o desconforto dos bancos em madeira da
carruagem ainda passou pelas “brasas”. No Porto procurou na Ribeira o Zé
Nicolau, indicado pelo Pároco da sua Freguesia, que era um conhecido engajador.
Quando o encontrou disse-lhe ao que vinha, ao mesmo tempo que exibia a carta de
recomendação. Este estabeleceu o preço da viagem, bem como dos papéis
necessários para entrar no Brasil, dizendo-lhe ainda que na Sexta-feira zarpava
do Douro um vapor para o Rio de Janeiro. Andou em busca do Senhor Barbosa, um
conhecido comerciante da Rua da Firmeza que costumava tomar águas nas termas do
Gerês e que era seu conhecido por via disso, com o intuito de este lhe arranjar
cómodo entre os dias que faltavam para a partida. Não foi difícil encontrar o
aquista. Este facultou-lhe um quarto nos fundos da sua casa e disse-lhe mesmo
que aparecesse nas horas da janta pois era sempre bem-vindo. Agradeceu a
amabilidade mas para não aborrecer só aparecia ao pequeno-almoço aproveitando
essa oportunidade para estabelecer uma amena cavaqueira com o seu anfitrião,
sendo certo que os temas da conversa eram sempre a Serra do Gerês e os seus
encantos bem como a Musica, pois eram ambos musicófilos.
A Sexta-feira lá arribou, pelo raiar da aurora já
estava a embarcar, o vapor iria sair por volta das onze para aproveitar a maré
para melhor deixar o Douro. Não vamos descrever a viagem entre o Porto e o Rio
de Janeiro. Todavia, podemos dizer que foi dura e longa, fértil em enjoos e
disenterias.
Os primeiros dias na cidade maravilhosa foram
penosos, a diferença de clima marcou-o de forma significativa, o calor e a
humidade roíam-lhe os ossos. Lá encontrou o Manuel Pereira seu conterrâneo que
o alojou na sua residência que se situava na zona da Mangueira. Em termos de
ofício aceitava qualquer trabalho manual pois a sua experiência sempre se deu
no amanho das terras, a par do gosto pela música. Arranjou emprego numa
tamancaria, tratava-se de uma pequena empresa de fabrico artesanal de calçado
cuja base era em madeira, isto é fabricação de socos, tamancos e chancas. Por
conseguinte as incumbências profissionais que lhe foram impostas era recolher a
madeira no bosque, transportar a mesma para oficina. Aí com goiva, formão e enchó
dar forma à base necessária para o calçado que era fabricado.
O local da
matéria-prima necessária eram vastos ameais que se situavam numas ilhas que
distavam algumas milhas da baía de Guanabara. A embarcação para o transporte
era um pequeno batel, movido por dois pares de remos e a tripulação era quase
sempre composta por quatro homens. Em Março de 1912, portanto já no Verão
brasileiro (época das chuvas tropicais), quatro embarcações lá seguiram rumo às
tais ilhas, numa delas, seguiam o Mestre Zé, o António Pereira, o Valdir, um
jovem negro, com cerca de 25 anos de idade, alto e forte como um touro e o
responsável pela missão o Jair, que era encarregado, ou como agora se diz “team
leader”. Saíram, como sempre ainda o dia não tinha clareado, pois, a remar com força,
eram necessárias cerca de quatro horas para chegar ao destino. O dia estava
soalheiro, mas a temperatura e a humidade eram bastante elevadas e o mar estava
chão. Na verdade o corte dos amieiros e o desbaste para melhor serem
transportados, correu normalmente, mas no horizonte começou a vislumbrar-se
nuvens negras o tecto começou a baixar, os animais, principalmente as aves
começaram a denotar comportamentos agitados e bastante nervosos, eram sinais
evidentes que iria haver borrasca. O Jair, homem de meia-idade e já com
bastante experiência naquela vida, vendo e analisando os dados climáticos,
procurou acelerar o trabalho de modo que se pudesse chegar a Guanabara, ainda
de dia e antes que explodisse a tempestade. A pouca visibilidade estava cada
vez mais evidente, o mar começou a agitar-se, o Pereira alvitrou que se pernoitasse
na ilha, embora não houvesse muitas condições para tal e que se adiasse, face
ao pronúncio de temporal, o regresso para o dia seguinte. O responsável após
medir os prós e os contras resolveu iniciar o regresso, pelas suas contas,
apesar do mar agitado e da carga dos barcos devia dar para chegar ao Rio ainda
com dia pela frente. As quatro embarcações em fila, a do nosso herói seguia na
segunda posição, as remadas firmes e vigorosas quase faziam voar os barcos
sobre as cristas das ondas, mas o panorama piorava a olhos vistos. Já com terra
bem à vista começou a chover copiosamente e a trovoar com bastante intensidade,
as ondas cada vez maiores, os barcos balançavam perigosamente, a ansiedade
começava a incomodar as pessoas, a carga não obstante ter sido bem
acondicionada começou a desprender-se. De um momento para o outro o barco da
frente desaparece, o receio do naufrágio é evidente, veem o barco voltado, a
carga espalhada no mar, os camaradas lutando contra a fúria do oceano, deixaram
de os ver. Apesar de calmeirão o Valdir tremia como uma vara verde e chorava
como uma madalena, rogava a Iemanjá que serenasse as águas revoltas,
efectivamente, gerou-se o pânico total. O Mestre Zé apenas pensava na sua Rosa
e nos seus filhos, principalmente na menina que tinha nascido há semanas e que
ainda não tinha visto, mas que se chamava Gracinda. Agarrado ao remo movia-o
com robustez e valentia, com vista a chegar ao areal que distava cerca de cem
metros. Gritava para o Valdir que se deixasse de lamúrias e remasse também. Não
queria morrer na praia. Prometeu solenemente aos santos, seus devotos,
principalmente a Santa Marinha, que se visse livre desta enorme aflição, logo
que pudesse regressaria à sua santa terrinha. Após desmedida peleja, quase sem
roupas e quase desfalecido lá conseguiu chegar a terra firme. Depois de
acalmar, chamou pelos amigos, porque a visibilidade era totalmente nula, tendo
constatado que o pessoal do seu barco e dos que o antecediam conseguiram
safar-se, no entanto, os quatro elementos do barco da frente foram engolidos
pelo mar bravio. Barcos e carga perdidos, afogamento de quatro camaradas, a
aflição e tristeza eram imensas, as lágrimas correram-lhe face abaixo. O
naufrágio foi notícia de primeira página nos jornais, abriu os noticiários da
rádio, Mestre Zé só compareceu no trabalho dois dias depois da tragédia.
Realmente, começou a contar as suas economias e verificou que ainda não tinha o
suficiente para adquirir a viagem de regresso a Portugal. Reiniciou o trabalho
com mais alma, trabalhava quase dia noite na ânsia de o mais breve possível juntar
os Cruzeiros suficientes para a compra da passagem. Apenas conseguiu esse
desiderato em princípios de 1913, de facto, a 7 de Fevereiro, embarcou no vapor
“Lusitânia” com destino ao Porto, quando via a sumir ao longe a costa
brasileira disse para si mesmo:- O Brasil não tinha sido a árvore das patacas
ia sendo, isso sim, o seu sarcófago.
Em princípios de Março
o Mestre Zé chegou ao Vilar da Veiga da mesma forma que o deixou, isto é dentro
da maior discrição e sem o menor alarido. Abraçou demoradamente a sua mulher e
os seus filhos, mas dedicou mais tempo à sua menina “caçulinha” que era uma,
mesmo, uma graça. Correspondia com o nome – Gracinda. Refez a vida, continuou
os trabalhos na quinta, reiniciou o ensino da música e esperou descansadamente
a actuação das autoridades. Na realidade não sabia, nem procurou saber, se os
Mandados de Captura emitidos contra si, emitidos em 1911, ainda estavam
pendentes. Contudo, pelo andar da carruagem verificou que nem o Regedor nem o
Cabo da Guarda moveram contra si qualquer acção policial, logo, pensou que tudo
estava sanado. A vida continuou, em 1914 e 1916 voltou a ser pai de duas
meninas, à primeira deu o nome de Maria da Glória, em homenagem à Rainha Dona
Maria II e à segunda deu o nome de Felicidade, pois foi esse sentimento que o
acometeu aquando da volta do Brasil e pôde reencontrar a sua família.
Jamais deixou ou
escondeu as suas preferências monárquicas, porém, como já referimos nunca foi
activo politicamente. Todavia, voltou a ser vítima das circunstâncias. Em 1919,
Paiva Couceiro volta à acção e, por uns meses, estabelece, no Porto, a
Monarquia do Norte. Depois da reposição republicana, voltou a caça às bruxas e
desta vez o Mestre Zé não se safou, foi mesmo detido. Ainda nessa condição
volta a ser pai, desta vez dum rapaz ao qual deu o nome de Manuel em homenagem
ao amigo Manuel Pereira que deixou em terras brasileiras As visitas da sua Rosa
e dos seus filhos eram efectuadas conforme se podia, recebia com alegria os pequenos
molhos de lenha, feitos com galhos de videira que a sua filha Gracinda lhe
levava para se aquecer na fria e térrea cela da Cadeia da Comarca de Vieira do
Minho. Apenas em 1920 volta à liberdade sem ser julgado ou condenado. Apesar de
tudo aceitou com resignação cristã todas as afrontas e contratempos que a vida
lhe proporcionou. Dizia sempre a família e a música tudo compensa.
PS. Esta estória é uma
homenagem ao meu avô materno José Maria Gonçalves o qual não tive a honra nem o
privilégio de conhecer. Mas sei que foi um grande e justo ser humano.
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